Botafogo mostra boa proposta de jogo, mas não consegue segurar o ímpeto ofensivo e a eficiência do Corinthians

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação das Gloriosas na derrota para a equipe de Arthur Elias no Brasileirão Feminino

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Thais Magalhães / CBF

Este que escreve já se declarou fã incondicional do trabalho de Arthur Elias e do já histórico Corinthians de Gabi Zanotti, Adriana, Érika e Crivelari por tudo que foi feito nos gramados brasileiros e sul-americanos nos últimos anos. Talvez esse seja o motivo pelo qual cada jogo do Timão no Brasileirão Feminino esteja cercado de perguntas sobre como os adversários da equipe do Parque São Jorge vão se comportar. E na partida realizada neste domingo (25), em São Paulo, a equipe de Arthur Elias venceu um Botafogo que foi aplicado, concentrado e intenso dentro das suas possibilidades. Não que as Gloriosas tenham jogado melhor do que o Corinthians. O foco aqui é outro. É entender como a equipe comandada (interinamente) por Léo Goulart se adaptou ao enorme volume de jogo e ímpeto ofensivo do seu adversário na Fazendinha e explorou os pontos fracos do melhor time do futebol feminino brasileiro.

A estratégia de Léo Goulart (substituto do suspenso Gláucio Carvalho) era clara. O Botafogo entrou em campo fechado num 4-1-4-1/4-3-3 em bloco baixo com o objetivo de roubar a bola ainda no seu campo e acelerar os contra-ataques com bolas mais longas para Gaby Louvain, Juliana e Brenda. E aí é que entra um detalhe curioso da partida. As Gloriosas perderam a sua camisa imediatamente antes de Jheniffer abrir o placar aos aos nove minutos de partida. Ainda que a equipe carioca se organizasse uma espécie de 4-4-1 na frente da área de Rubi, o Corinthians de Arthur Elias já havia encaixado a sua “inversão da pirâmide” com Tamires mais por dentro, Crivelari e Juliete abrindo o campo e com Diany e Vic Albuquerque se juntando a Jheniffer. Aliás, é preciso dizer que a camisa 9 do escrete paulista mostrou mais uma vez um potencial imenso de crescimento. Se posiciona dentro da área com raro faro de gol e sabe como ler espaços na defesa adversária.

Tamires recebe a bola no meio-campo e vê o Corinthians fazendo a inversão do 4-3-3 para o 2-3-5 com o avanço de Crivelari, Diany, Vic Albuquerque e Juliete. O Botafogo tentou se organizar com uma jogadora a menos, mas não conseguiu conter o forte ataque adversário. Foto: Reprodução / BAND

Daí para o final do primeiro tempo vimos um Botafogo extremamente aplicado e organizado na marcação no seu campo. Cris fechava bem o espaço entre as linhas e contava com o auxílio de Vivian e Driely na perseguição das adversárias. Ao mesmo tempo, as laterais Mylena e Chaiane (talvez preocupadas com os avanços de Crivelari e Juliete) avançavam pouco ao ataque. O gol de Adriana aos oito minutos do segundo tempo (em “apagão” geral da defesa das Gloriosas depois de bola rebatida no meio-campo) fez com que Léo Goulart avançasse as linhas da sua equipe. Ao invés de forte marcação no seu campo, o Botafogo pressionou a saída de bola e provocou o erro de Poliana na saída de bola. Mylena interceptou o passe e deixou Brenda em plenas condições de marcar o primeiro gol do escrete de General Severiano no Brasileirão Feminino e colocar ainda mais emoção numa partida bastante movimentada na Fazendinha.

Antes mesmo de Poliana receber a bola, o trio ofensivo do Botafogo já inicia uma pressão na saída de bola do Corinthians. Com o erro no passe, Mylena recupera a posse da bola e vê Brenda se lançando às costas de Katiuscia. Boa trama das Gloriosas na ocupação de espaços na frente. Foto: Reprodução / BAND

Só que uma das grandes qualidades desse Corinthians de Arthur Elias é a eficiência. Principalmente nas bolas aéreas. Cinco minutos depois que Brenda marcou o gol de honra do Botafogo, Ingryd cobrou escanteio da esquerda e Jheniffer mandou para as redes. Quem viu o lance com atenção percebeu que a defesa das Gloriosas não estava desorganizada antes da cobrança do escanteio. As jogadoras faziam uma letra “L” com o objetivo de proteger a baliza de Vivi e interceptar o cruzamento. Só que é aí que entra o “dedo” do técnico Arthur Elias. Pardal avança e puxa a marcação. É exatamente no espaço que vai se abrir ali na pequena área que Jheniffer aparece com liberdade para balançar as redes. Não é exagero dizer que o Corinthians é uma das equipes mais eficientes nas jogadas de bola parada de todo o continente sul-americano. O Botafogo acabou não resistindo a tamanha eficiência.

Crivelari cobra o escanteio da esquerda, Pardal avança e abre o espaço para a chegada de Jheniffer dentro da pequena área. Mesmo com o Botafogo bem organizado defensivamente e protegendo bem os espaços, o Corinthians conseguiu balançar as redes de Vivi. Eficiência e concentração. Foto: Reprodução / BAND

A maior prova de que o Botafogo chegou a equilibrar um pouco as ações contra o Corinthians foram as entradas de Gabi Zanotti e Adriana logo depois do intervalo. Com duas jogadoras muito mais experientes e qualificadas, o escrete de Arhtur Elias conseguiu encontrar mais maneiras de furar o eficiente bloqueio defensivo das Gloriosas. Diante de todo o contexto da partida, a atuação do escrete de General Severiano deixa sim boas lições para o futuro. Principalmente pela maneira como a equipe se comportou diante de um adversário muito mais qualificado, com muito mais peças de reposição e de vasto poderio ofensivo. Por mais que a campanha do Botafogo no Brasileirão Feminino não seja a esperada pela sua torcida, os pontos positivos merecem atenção de Gláucio Carvalho na próximas rodadas. Ainda mais com a competição ainda nas suas primeiras rodadas e com várias equipes tendo atuações irregulares.

O jogo deste domingo também nos presenteou com Crivelari tendo boa atuação como goleira e salvando o Corinthians depois que Tainá Borges se lesionou. É compreensível que Arthur Elias queira rodar sua equipe nesse início de temporada, mas a impressão que ficou foi a de que o treinador do Corinthians se precipitou um pouco nas cinco substituições. Mesmo assim, a defesaça da camisa 19 foi a principal atração de mais um grande jogo do Brasileirão Feminino.

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