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São Paulo controla espaços, anula o Palmeiras e acaba com o jejum de títulos com vitória incontestável

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa o resultado no Morumbi e os erros e acertos de Hernán Crespo e Abel Ferreira

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rubens Chiri / saopaulofc.net

O São Paulo não comemorava um título desde a conquista da Copa Sul-Americana em 2012 e não sabia o que era levantar um Campeonato Paulista desde 2005. É quase uma eternidade para um clube do tamanho do Tricolor Paulista. Seja como for, a quebra desse incômodo jejum aconteceu nesse domingo (23) com a vitória (incontestável) sobre o Palmeiras por 2 a 0 dentro do Morumbi. E nesse ponto, o impacto da chegada de Hernán Crespo ao São Paulo tem influência direta na conquista do Paulistão. Não somente por organizar os talentos que tinha à disposição numa equipe extremamente competitiva e muito bem organizada, mas por ter feito as escolhas certas nesses primeiros meses da atual temporada. Estava nítido que o clube precisava tirar o peso das costas e comemorar um título. E Crespo fez isso anulando um Palmeiras forte e controlando bem os espaços dentro de campo nas duas partidas da decisão.

Mas é preciso dizer que as finais do Campeonato Paulista foram marcadas por um futebol bem pobre de ideias. E o que se viu na partida deste domingo (23) foi um jogo muito amarrado no meio-campo e com pouquíssima criatividade. O contexto vivido pelos clubes (que envolve uma extenuante maratona de jogos e a pressão absurda nos bastidores pela conquista de títulos) acabou influenciando Abel Ferreira e Hernán Crespo na montagem das suas equipes (ambas organizadas no 3-5-2 com muita movimentação no terço final e uma boa dose de pragmatismo). O Palmeiras até levava certa vantagem no duelo ao forçar o erro na saída de bola do seu adversário e explorar as dificuldades de Miranda no jogo pelo chão. Mesmo assim, o escrete alviverde ameaçou pouco o gol de Tiago Volpi. O panorama só mudou quando Luan arriscou de fora da área e viu a bola desviar no BUMBUM de Felipe Melo antes de morrer nas redes de Weverton.

Era nítido que o São Paulo sentia demais a falta de Daniel Alves e Benítez no seu meio-campo. Mas Hernán Crespo foi inteligente ao reforçar o setor com Luan e Liziero, posicionar Igor Gomes e Gabriel Sara perto das laterais e fechar os espaços. Do outro lado, Abel Ferreira (que mais uma vez perdeu as estribeiras por nada no banco de reservas) via o Palmeiras perder consistência e intensidade no ataque com a péssima atuação de Rapahel Veiga (completamente sumido na partida) e as claras dificuldades de Felipe Melo e Danilo Barbosa na criação das jogadas. Ao mesmo tempo, Mayke e Victor Luís pouco apareceram no ataque e sofreram com as subidas de Igor Vinícius e Reinaldo. O treinador português ainda tentou corrigir o equívoco na escalação inicial com as entradas de Patrick de Paula e Danilo, mas o panorama seguia o mesmo: muita ligação direta e criatividade quase nula no Palmeiras.

Os números do SofaScore (no tweet acima) não comprovam apenas a superioridade do São Paulo durante os 90 minutos. Mostram que Hernán Crespo acertou em cheio na mexida após o intervalo. Luciano entrou no lugar de Pablo e deu muito mais mobilidade ao ataque tricolor. A entrada de Rojas no lugar de Igor Gomes ajudou ainda mais a desarrumar a defesa do Palmeiras que, a essa altura, já jogava num 4-2-4 tresloucado e sem um mínimo de organização defensiva. Aos 31 minutos do segundo tempo, Rodrigo Nestor avançou pela esquerda (às costas de Gabriel Menino) quase sem marcação nenhuma e cruzou para a área palmeirense. Luciano só teve o trabalho de escorar para as redes de Weverton. Não era “apenas” o gol do título. Era o gol que coroava a estratégia de Hernán Crespo e a atuação sólida do São Paulo num cenário em que a equipe tinha tudo para sentir a pressão da final do Campeonato Paulista.

O que mais impressionava este que escreve era a dificuldade que o Palmeiras tinha para levar um mínimo de perigo ao gol de Tiago Volpi. O primeiro lance mais agudo aconteceu apenas aos 38 minutos do segundo tempo. Muito pouco para uma equipe que venceu a Libertadores e a Copa do Brasil não faz muito tempo. E muito pouco também para Abel Ferreira que, por incrível que pareça, afirmou que o Palmeiras foi superior ao São Paulo no primeiro tempo. Pode ser que o treinador português estivesse de “cabeça quente” por conta de mais um vice-campeonato e que apenas tivesse a intenção de valorizar a atuação dos seus jogadores. Atitude justa e louvável, mas que acaba soando como arrogância diante de tudo o que foi visto no Morumbi nesse domingo (23). Não há problema nenhum em ser pragmático se você sabe se adaptar e encontrar soluções para cada situação que o jogo pede. Coisa que o Palmeiras não soube fazer.

A grande sacada de Hernán Crespo não estava ligada a qualquer desenho tático ou inovação na maneira de se jogar o velho e rude esporte bretão. O treinador argentino foi muito inteligente quando resolveu tirar deixar seus jogadores à vontade. É óbvio que ele sabia que uma campanha ruim no Campeonato Paulista complicaria a sua passagem pelo Morumbi e aumentaria ainda mais a pressão sobre o elenco com relação ao jejum de títulos. Por mais que os campeonatos estaduais já não tenham mais o peso e o glamour de décadas passadas, Crespo sabia que a conquista do Paulistão aumentaria a confiança dos seus jogadores e os deixaria mais leves. Às vezes, isso é mais importante do que qualquer inovação na formação tática ou na maneira de se jogar o velho e rude esporte bretão. Hernán Crespo não apenas fez seus jogadores controlarem espaços dentro de campo. Fez com que eles controlassem os nervos também.

Difícil não enxergar o São Paulo como um forte candidato ao título brasileiro depois da quebra do jejum de títulos. A equipe chega sem muita pressão e com plenas condições de realizar uma ótima campanha. E isso sem falar na disputa da Libertadores, onde o Tricolor Paulista também faz boa participação. Até aqui, o trabalho de Crespo na administração do elenco tricolor tem sido magnífica. Não é qualquer treinador que consegue ter um impacto tão forte em tão pouco tempo.

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