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Sejamos honestos: eliminação de Portugal da Eurocopa não foi surpresa pra ninguém

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa vitória da Bélgica de Roberto Martínez sobre o time de Fernando Santos nas oitavas de final da Eurocopa

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / UEFA EURO 2020

Antes de mais nada, é preciso dizer que o confronto entre Bélgica e Portugal foi marcado pela falta de criatividade e pela postura mais burocrática das duas seleções. Tanto que o gol de Thorgan Hazard saiu da única finalização certa do escrete de Roberto Martínez em toda a partida deste domingo (27), em Sevilla. Por outro lado, não é exagero nenhum afirmar que a eliminação da equipe de Fernando Santos da Eurocopa não é surpresa pra ninguém. Muito por conta do futebol pobre que a Seleção das Quinas (apesar do elenco altamente qualificado) apresentou nos últimos meses. Os Diabos Vermelhos fizeram o básico e jogaram o suficiente para superar um adversário que parecia jogar apenas “com o nome”. A grande verdade é que faltou tudo em Portugal. Organização, intensidade nas transições, concentração e jogo coletivo. Nem o talento de Cristiano Ronaldo e companhia salvou a nau lusitana.

As escolhas de Fernando Santos para o time que iniciou a partida são bastante compreensíveis. Ainda mais depois do baile que levou da Alemanha de Joachim Löw na segunda rodada da fase de grupos. O treinador lusitano apostou num meio-campo mais reforçado com João Palhinha, João Moutiho e Renato Sanches num 4-1-4-1 que ainda contava com o retorno de Bernardo Silva e Diogo Jota pelos lados para auxiliar os laterais Diogo Dalot e Raphaël Guerreiro na marcação. Embora estivesse bem organizado na frente da área de Rui Patrício, o time de Portugal pecava principalmente pela lentidão nas transições contra uma Bélgica que tentava ocupar o campo de ataque com os alas Meunier e Hazard (o Thorgan) bem espetados e com De Bruyne trocando de posição com Lukaku a todo momento. Além disso, o outro Hazard (o Eden) se movimentava bastante e se juntava a Tielemans e Witsel na armação das jogadas de ataque.

Fernando Santos apostou num meio-campo formado por João Palhinha, João Moutinho e Renato Sanches e na compactação defensiva para conter o ímpeto ofensivo da Bélgica. No entanto, a equipe de Portugal pecou demais pela lentidão nas transições. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

O gol de Thorgan Hazard (marcado aos 41 minutos do primeiro tempo) mostrava que a Bélgica precisou fazer apenas o básico para escancarar os problemas coletivos da equipe comandada por Fernando Santos. Além, é claro de ser a senha para que Roberto Martínez fechasse sua equipe com uma linha de cinco na defesa e posicionasse Lukaku, Mertens (substituto de De Bruyne, lesionado) e Eden Hazard para puxar os contra-ataques. Por mais que o talento individual fosse gigantesco na Seleção das Quinas, ainda faltava o plano de jogo mais elaborado para encaixar todos esses ótimos jogadores numa equipe minimamente coesa. Difícil não perceber os problemas da equipe de um extremamente conservador Fernando Santos. A começar pelo posicionamento de Bernardo Silva colado na linha lateral e pela ausência de João Félix, Sérgio Oliveira e Bruno Fernandes do onze inicial de Portugal nessa Eurocopa.

Com a vantagem no placar, a Bélgica se fechou no 5-3-2 já bem conhecido de Roberto Martínez e viu Portugal atacar sem muita organização. Fernando Santos não conseguiu transformar os talentos que tinha à sua disposição numa equipe minimamente coesa. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Os números do SofaScore comprovam a tese colocada no início desta humilde análise: a Bélgica não precisou fazer muita coisa para vencer Portugal e se garantir nas quartas de final da Eurocopa. Foram 23 finalizações a gol contra apenas seis do escrete de Roberto Martínez. Na prática, o escrete de Fernando Santos só conseguia levar certo perigo ao gol de Courtois na base das bolas levantadas na área buscando Cristiano Ronaldo ou algum zagueiro que largou seu posicionamento para “tirar uma” de atacante. Rúben Dias e André Silva colocaram o goleiro belga para trabalhar e Raphaël Guerreiro acertou a trave esquerda em chute de primeira da entrada da área. Mas o mais impressionante de tudo era o fato da Bélgica conceder espaços na frente da sua área. Mas o escrete de Fernando Santos estava tão lento nas transições que não conseguiu emplacar nenhum “abafa” no final da partida.

Portugal ainda tentou um “abafa” no final da partida, mas seguia pecando demais pela lentidão nas transições e pela desorganização na hora de atacar. Na prática, a Bélgica não precisou sofrer muito para se classificar para as quartas de final da Eurocopa. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

É lógico que a Bélgica tem seus méritos na classificação. A equipe de Roberto Martínez tem um plano de jogo consistente (embora ainda não aproveite o potencial de Lukaku, De Bruyne, Hazard e companhia da melhor maneira), soube como explorar as deficiências dos seus adversários e se garantiu nas quartas de final da Eurocopa sem muitos sustos. A partida contra a Itália, no entanto, será a prova de fogo de uma seleção da qual se espera demais. Já Portugal volta para cara com a certeza de que a sua eliminação não surpreendeu nem o mais otimista dos torcedores lusitanos. Este que escreve discutiu se essa era a geração mais talentosa do país desde o quarto lugar na Copa do Mundo de 2006, mas alertava para a necessidade que Fernando Santos tinha de encontrar a melhor maneira de encaixar o grande número de talentos que tinha à disposição. E isso com Cristiano Ronaldo ainda em ótima fase.

A Bélgica segue na Eurocopa e Portugal agora pensa nas Eliminatórias para o Mundial do Catar. Ainda há tempo para se corrigir os problemas coletivos e buscar alternativas para o estilo mais conservador de Fernando Santos. Apesar de tudo, há boas notícias. Renato Sanches evoluiu muito e mostrou a maturidade necessária para assumir a vaga de titular. Mesmo assim, ainda é pouco para que a Seleção das Quinas se consolide de uma vez por todas no seleto grupo das melhores equipes do mundo.

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