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Qual é o valor dessa Copa América para Tite e a Seleção Brasileira?

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas do treinador do escrete canarinho para a disputa da competição sul-americana

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

O “manifesto” (com aspas mesmo) publicado pelos jogadores da Seleção Brasileira após as vitórias sobre Equador e Paraguai apenas serviu para frustrar todos aqueles que esperavam uma reação mais dura contra a realização da Copa América no Brasil. Acabou que a “posição clara” alardeada por Tite, Marquinhos e Casemiro se transformou num verdadeiro paradoxo. Todos se mostraram contrários à mudança da sede para o Brasil, mas não explicaram os motivos dessa insatisfação e reafirmaram o desejo de seguir defendendo a equipe. Tanto que a lista de convocados para a Copa América trazia pouquíssimas mudanças com relação ao grupo que jogou as duas partidas válidas pelas Eliminatórias. Diante de todo o delírio coletivo que tomou conta das redes sociais nos últimos dias, fica difícil entender os motivos que levaram Tite a convocar aquilo que ele entende como força máxima para a disputa da competição.

Na prática, a presença do zagueiro Thiago Silva no lugar de Rodrigo Caio é a única mudança na lista de convocados. De resto, a Seleção Brasileira vai em busca do bicampeonato da Copa América com aquilo que Tite julga ser o melhor para a sua equipe. Ou pelo menos com o grupo que o treinador deseja trabalhar nesse momento. Assim como foi comentado na divulgação da lista para os jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo, muita coisa pode ser questionada. Ainda mais quando já se sabe que essa seria uma ótima chance para Tite observar outros jogadores que ficaram de fora da última convocação. Podemos citar Diego Carlos (zagueiro do Sevilla), Raphinha (meia do Leeds United), Malcom (atacante do Zenit e da Seleção Olímpica), Tetê (atacante do Shakhtar Donetsk), Raphael Veiga (meia do Palmeiras), Arthur Cabral (atacante do Basel) e Allan (volante do Everton). Todos excelente nomes.

Mas a dúvida que fica na cabeça deste colunista (e externada no título desta humilde análise) reside na importância da Copa América para Tite e para os jogadores da Seleção Brasileira. Se eram contra a realização do torneio no Brasil (tal como está escrito no famigerado “manifesto”), por que fazem tanta questão de disputá-la? Por que o treinador do escrete canarinho manteve praticamente todos os atletas que foram chamados para os jogos das Eliminatórias? Por que a situação de Rogério Caboclo na CBF e todos os problemas no controle da pandemia de COVID-19 sequer foram citados? Se a preocupação com informações falsas e com o “que sai na imprensa” foi citada na carta aberta, por que não se manifestaram assim que a mesma imprensa começou a noticiar todos os problemas que aconteciam nos bastidores e que poderiam culminar num dos maiores motins da história do futebol mundial?

Francamente, é muito difícil entender essa postura. E é ainda mais complicado compreender os motivos que levam Tite (um dos que falou em “posição clara” nas últimas entrevistas coletivas) a utilizar o grupo que considera o ideal para a Seleção Brasileira. Vale lembrar que o boicote à Copa América foi sim cogitado por jogadores e comissão técnica apesar de todos negarem com veemência todos os fatos noticiados nos últimos dias. Ao mesmo tempo, é impossível não perceber que a saída de Rogério Caboclo do comando da CBF provocou uma mudança radical no ambiente do escrete canarinho. Se o semblante estava mais pesado na vitória sobre o Equador em Porto Alegre, o clima estava bem mais leve no triunfo sobre o Paraguai. Fatos que também comprovam que Tite teve seu cargo ameaçado sim. Mesmo que esteja realizando um belíssimo trabalho como este que escreve já mencionou aqui mesmo no TORCEDORES.COM mais de uma vez.

Seja como for, é bem possível que Tite repita as variações táticas dos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo nas partidas da Copa América. Nada de muito novo, é verdade. Principalmente pela característica dos jogadores chamados para a disputa do torneio continental. O treinador da Seleção Brasileira pode retornar ao seu 4-1-4-1 costumeiro com Fred e Douglas Luiz (ou Lucas Paquetá) jogando à frente de Casemiro, apostar na velocidade e vigor físico de Renan Lodi (no lugar de Alex Sandro) como “ponta” pela esquerda na inversão para o 3-2-5 ou aprimorar o 4-4-2/4-2-4 que funcionou muito bem contra um Paraguai bem fechado e compactado na defesa. E isso sem falar que Tite ainda conta com nomes como Vinícius Júnior, Gabigol, Everton Cebolinha, Fabinho e Everton Ribeiro para mudar as características da equipe durante o jogo ou cumprir determinada função específica na Seleção Brasileira.

Brasil - Football tactics and formations

A Copa América deve servir para Tite testar outras formações ou aprimorar desenhos táticos já utilizados por ele na Seleção Brasileira. O 4-4-2/4-2-4 da vitória sobre o Paraguai é um dos desenhos táticos que mais potencializou o talento individual em prol do jogo coletivo.

Não é difícil concluir que a Copa América (apesar de todos os problemas em torno da sua realização e da maneira como ela vem sendo utilizada com cortina de fumaça por quem finge governar o nosso país) tem grande valor para Tite e para os jogadores da Seleção Brasileira. O treinador do escrete canarinho fazer mais experiências com o grupo que escolheu para trabalhar até a Copa do Mundo de 2022 e os jogadores terão mais uma oportunidade de marcar lugar no elenco que deve estar no Catar daqui a um ano e alguns meses. No entanto, a aposta é de altíssimo risco. Uma campanha ruim na Copa América pode terminar de destruir a reputação de Tite no comando da Seleção Brasileira. Por mais que o treinador tenha prestígio junto à cúpula da CBF e aos jogadores, as críticas dos “negacionistas do futebol” vêm ganhando força num cenário cada vez mais polarizado e cercado pelos interesses deste ou daquele cartola.

O “manifesto” publicado na quarta-feira (9) deixou claro que ninguém quer se indispor com a cúpula da CBF e do Planalto ainda que a insatisfação do grupo tenha ficado evidente. No entanto, por mais que digam o contrário, a grande verdade é que essa Copa América vale muito para Tite e para a Seleção Brasileira. Não se trata apenas da premiação. O prestígio e a consolidação do Brasil na hegemonia do continente sul-americano vão estar em jogo. É por isso que o risco é altíssimo.

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