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Seleção Brasileira cala os “negacionistas do futebol” com ótimo jogo coletivo, intensidade e quebra de tabus

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória dos comandados de Tite sobre o Paraguai no Estádio Defensores del Chaco

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Tite é o melhor treinador brasileiro no momento. E com sobras. Este que escreve não afirma isso por causa da vitória sobre o Paraguai fora de casa, mas por todo conjunto da obra. Além da quebra do jejum de 35 anos sem vitórias em Assunção, a Seleção Brasileira igualou a marca das “Feras do Saldanha” com seis vitórias consecutivas nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Fora isso, Tite conquistou a sua vitória de número quarenta em 54 jogos no comando do escrete canarinho. Por mais que o Brasil sobre no futebol sul-americano, precisamos reconhecer que o treinador faz um ótimo trabalho numa equipe que vem se tornando cada vez mais competitiva e sólida. A vitória por 2 a 0 sobre o Paraguai (com gols de Neymar e Lucas Paquetá) nesta terça-feira (8) não empolgou o torcedor, é verdade. Mas mostrou que a Seleção Brasileira já se transformou num time extremamente difícil de ser batido.

Isso porque Tite tem seu grupo na mão. E os últimos acontecimentos fortaleceram ainda mais seu elo com os jogadores do escrete canarinho. Estes, por sua vez, compraram as ideias do treinador e as executam com o máximo de dedicação. O gol de Neymar (logo aos três minutos de partida no Defensores del Chaco) mostrou que o 4-2-4 inicial do treinador da Seleção Brasileira já havia cumprido a sua primeira missão: abrir espaços no 5-4-1 paraguaio utilizando bolas longas vindas da defesa e a movimentação do quarteto ofensivo. Nesse ponto, a movimentação de Firmino e a “furada” de Richarlison foram fundamentais para deixar o camisa 10 livre dentro da área. Mas o que chamava a atenção era a maneira como o Brasil se comportava na marcação. Sempre com muita intensidade no portador da bola e buscando fechar as saídas do Paraguai com ótimo posicionamento no meio-campo e marcação em bloco médio.

Tite apostou num 4-2-4/4-4-2 para aproveitar a velocidade de Gabriel Jesus e Richarlison às costas da defesa paraguaia. A disposição tática da Seleção Brasileira isolava o trio de zagueiros do Paraguai do meio-campo e dificultava bastante a saída de bola adversária. Foto: Reprodução / TV Globo

Mas os “negacionistas do futebol” que tomaram conta das redes sociais eram os mesmos que deliravam sobre conceitos já batidos há muito tempo e não querem enxergar o trabalho que vem sendo realizado na Seleção Brasileira. Por mais que o time não empolgue o torcedor como eu e você gostaríamos, a verdade é que há uma ideia clara de jogo sendo colocada em prática. Pode não ser o “futebol-arte” tão exaltado por uns que não percebem que o momento atual é tudo menos romântico. E Tite sabe que precisa ser pragmático quando o contexto das partidas exige essa postura. O escrete canarinho abriu mão da posse de bola e optou pelos lançamentos longos para Richarlison e Gabriel Jesus entrarem em diagonal na direção do gol. Neymar e Firmino (ainda que este último não tenha feito uma boa partida) se movimentavam e abriam os espaços na linha de cinco defensores da equipe comandada por Eduardo Berizzo.

A Seleção Brasileira abriu mão da posse da bola e foi muito mais vertical do que o costume. Richarlison e Gabriel Jesus eram os alvos dos lançamentos vindos do meio e da defesa e aproveitavam a movimentação de Firmino e Neymar na intermediária adversária. Foto: Reprodução / TV Globo

Ao contrário do que muitos de vocês podem estar pensando, nada do que foi colocado aqui neste espaço indica um “habeas corpus futebolístico” para Tite. Questionar o treinador faz parte do jogo e é até saudável. Há como se questionar a insistência em Alex Sandro (que parecia perdido na marcação pela esquerda errava lances bobos) e o aproveitamento de um Firmino nitidamente desconfortável com seu posicionamento no quarteto ofensivo da Seleção Brasileira. Vale lembrar também que o treinador do escrete canarinho quase colocou o Paraguai no jogo quando sacou o camisa 20 para a entrada do volante Douglas Luiz. Não que o camisa 3 tenha entrado mal, mas a Seleção Brasileira demorou um pouco para assimilar as mudanças. Apesar da grande fase do sistema defensivo, Tite poderia ter colocado tudo a perder nos poucos minutos em que o Paraguai ameaçou a meta brasileira com bolas levantadas na área.

O Brasil demorou para assimilar as as mudanças realizadas por Eduardo Berizzo no Paraguai. Mesmo assim, o sistema defensivo da Seleção Brasileira segue em grande fase. Muita compactação com Casemiro comandando os movimentos e Neymar puxando os contra-ataques. Foto: Reprodução / TV Globo

Não foi por acaso que Tite mandou Everton Cebolinha e Gabigol para o jogo nos minutos finais. Com mais intensidade e mais força física nas transições, Neymar jogando por dentro (onde tem muito mais condições de mostrar seu enorme talento) e muita velocidade no terço final. A marcação realizada em bloco mais baixo (como vista na imagem acima) dava o campo necessário para que os atacantes da Seleção Brasileira puxassem os contra-ataques e aproveitar os espaços que apareciam no meio-campo paraguaio. O gol de Lucas Paquetá (marcado aos 48 minutos do segundo tempo), inclusive, exemplifica muito bem toda a ideia de futebol que Tite quer de sua equipe. Neymar carrega a bola e atrai dois jogadores, Gabigol puxa a marcação para a esquerda, gera a dúvida no marcador e abre o espaço para o camisa 17 receber o passe com tranquilidade e bater de primeira na saída do bom goleiro Antony Silva.

Neymar puxa o contra-ataque, atrai a marcação do Paraguai e aproveita a movimentação de Gabigol para deixar Lucas Paquetá em totais condições de balançar as redes. Tite corrigiu os problemas da Seleção Brasileira com mexidas certeiras e bem planejadas. Foto: Reprodução / TV Globo

Além da quebra do jejum de 35 anos sem vitórias sobre o Paraguai em Assunção, Tite ainda atingiu a incrível marca de seis vitórias em seis partidas nas Eliminatórias da Copa do Mundo. É possível discordar do estilo mais “posicional” do ataque, mas é preciso reconhecer que o escrete canarinho tem uma ideia de jogo claríssima e muito bem implementada num cenário em que os poucos dias disponíveis para treinamentos prejudicam demais o entendimento dos conceitos do treinador. Há como questionar esta ou aquela escolha. Há como se discordar da metodologia de trabalho. Há como “cornetar” as convocações de jogadores que ainda não entregaram desempenho satisfatório com a camisa amarelinha. Mas pedir a cabeça de Tite na Seleção Brasileira e trocá-lo por nomes que debocham do conhecimento e do estudo sério é uma postura que explica muito bem os 7 a 1 que levamos nesses últimos anos.

Os “negacionistas do futebol” vão continuar vomitando bobagens nas redes sociais e negando o óbvio. Tite faz um trabalho de excelência no escrete canarinho. A equipe é altamente competitiva e o treinador encontrou alternativas interessantes para situações diferentes. Ninguém é obrigado a concordar com o técnico da Seleção Brasileira ou com este colunista. Mas se Tite deixar o comando da equipe, que seja substituído por alguém mais competente. E esse nome ainda não existe aqui no Brasil.

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