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Adaptação ao contexto é a melhor notícia que Fernando Diniz poderia dar ao torcedor do Santos

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória do Peixe e a atuação do Atlético-MG na partida deste domingo (27)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Ivan Storti / Santos FC

Eu e você sabemos que Fernando Diniz é um dos técnicos mais controversos e que mais se tornou em tema de debate nesses últimos anos no futebol brasileiro. Principalmente por conta de seu apego quase que incondicional e inegociável aos seus conceitos de saída de pelo chão, toque de bola e postura mais ofensiva. No entanto, é preciso dizer que o treinador vem mostrando uma outra face no comando do Santos. Ainda que a atuação do Peixe na vitória por 2 a 0 sobre o estrelado Atlético-MG de Cuca tenha ficado marcada por uma certa afobação e por erros no posicionamento defensivo, Fernando Diniz deixou a impressão de que está se adaptando ao contexto que encontrou na Vila Belmiro. O Santos adotou uma postura mais inteligente na troca de passes e muito intensa nas transições (ainda que essas tenham sido realizadas de maneira meio aleatórias). Ótima notícia pata ele e para o Peixe.

Apesar de iniciar a partida na Vila Belmiro com mais posse de bola, o Santos encontrava algumas dificuldades para abrir espaços na defesa do Atlético-MG. As coisas começaram a fluir quando o meio-campo passou a acionar Marcos Guilherme e Felipe Jonatan e forçar o jogo em cima de Guga, lateral que ainda apresenta sérios problemas na marcação. O 4-3-3 de Fernando Diniz trazia Ivonei fazendo a “saída Lapolpiana” e liberando os laterais santistas para o ataque junto de Marinho, Kaio Jorge, Jean Mota e Gabriel Pirani. Do outro lado, o Galo apostava mais nas transições rápidas para Hulk e Keno, mas o ataque ficou mais isolado no primeiro tempo. Muito por conta das escolhas do treinador atleticano. A formação que trazia Tchê Tchê mais avançado em relação a Allan e Jair não conseguia dar fluidez às jogadas de ataque e ainda isolavam o setor ofensivo do restante da equipe mineira.

Atletico-MG vs Santos - Football tactics and formations

Ivonei recuava entre os zagueiros Luiz Felipe e Luan Peres e liberava Pará e Felipe Jonatan para avançar. O Santos se mostrava um pouco mais inteiro e consistente do que o Atlético-MG que, por sua vez, apostava nas transições rápidas buscando Hulk e Keno no terço final.

Embora as duas equipes estivessem com seus setores muito espaçados, a equipe de Fernando Diniz tinha um pouco mais de consistência do que a comandada por Cuca (que não esteve na beira do gramado por estar suspenso). E nesse ponto, ainda que o Santos ainda precise de ajustes na recomposição para a defesa, é preciso reconhecer que o treinador do Peixe vem conseguindo tirar boas coisas de um elenco sem muitas estrelas. Seus conceitos ainda estão lá. A saída de bola por baixo, a postura ofensiva e a intensidade nos contra-ataques. Mas tudo é feito com mais das condições do jogo. Assim como no (belíssimo) gol marcado por Jean Mota aos onze minutos da segunda etapa em jogada iniciada a partir de bola roubada por Luan Peres ainda na intermediária santista. Marcos Guilherme avançou, passou para Kaio Jorge e que apenas rolou macia para o camisa 41 acertar belo chute da entrada da área.

Esse Santos de Fernando Diniz parece saber o momento certo de acelerar e cadenciar o jogo ou de usar mais as ligações diretas buscando a velocidade do trio ofensivo do que tentar fazer a bola chegar no ataque na base de passes curtos. Do outro lado, Cuquinha tentava devolver um pouco da consistência perdida no Atlético-MG com as entradas de Calebe, Zaracho, Luiz Felipe, Mariano e Felipe Felício, mas sem muito sucesso. O Galo esbarrava na falta de ideias e na desorganização do time dentro de campo. Hulk permaneceu isolado no ataque e Guilherme Arana acabou caindo de produção com a saída de Keno no segundo tempo. Não foi à toa que o Santos fechou o placar aos 48 minutos (logo depois da expulsão tola de Allan) em contra-ataque de manual puxado por Marcos Guilherme (um dos melhores em campo). O camisa lançou Madson por dentro e apareceu na pequena área para apenas escorar para o gol vazio.

Santos vs Atletico-MG - Football tactics and formations

O Atlético-MG tentou se lançar ao ataque com as entradas de Calebe, Zaracho, Luiz Felipe, Mariano e Felipe Felício, mas os problemas da equipe persistiram. O Santos se fechou na defesa, cadenciou o jogo quando foi preciso e acelerou no momento certo. Vitória justíssima.

É verdade que o Campeonato Brasileiro ainda está nas suas primeiras rodadas e que muita coisa ainda está para acontecer na competição. Por outro lado, é preciso reconhecer que a grande notícia para o torcedor do Santos talvez seja o fato de que Fernando Diniz se mostra mais disposto a adaptar seus conceitos ao elenco que tem à disposição na Vila Belmiro. Não que ele já não tivesse essa postura no Fluminense, no São Paulo e nas demais equipes que comandou. O que se vê é uma coisa chamada amadurecimento. Apesar da ótima campanha na Vila Belmiro e dos bons números no Brasileirão, as oscilações no escrete santista vão acontecer pelos mais variados motivos. Lesões, suspensões, negociações de jogadores e por aí vai. É por isso que ver Fernando Diniz tentando se adaptar ao contexto que encontrou é um trunfo e tanto para um Santos que já sofreu bastante nesses primeiros meses de 2021.

A vitória sobre um estrelado (e desfalcado) Atlético-MG não apenas dá moral para a sequência da competição. Ela também credencia o trabalho de Fernando Diniz à frente de um elenco jovem e com poucas referências técnicas. Esse ponto ajuda a explicar a utilização de jogadores mais experientes como Pará, Carlos Sánchez, Marinho e outros no time titular. Se mantiver a flexibilidade na adaptação dos conceitos, Diniz finalmente pode encontrar a regularidade que tanto procura.

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