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Classificação da Itália foi justíssima, mas Bélgica merece respeito e reconhecimento de todos nós

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a atuação do time de Roberto Mancini e o legado deixado pelos Diabos Vermelhos

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / UEFA EURO 2020

Falar que a incrível Itália de Roberto Mancini joga o melhor e mais empolgante futebol da Eurocopa é chover no molhado. A Squadra Azzurra é ofensiva, envolvente, intensa e bastante comprometida com o modelo e a filosofia implementada pelo seu treinador. Mas é preciso dizer que a vitória (justíssima) por 2 a 1 não diminui em nada o tamanho e a qualidade da Bélgica de Roberto Martínez. Ao contrário dos comentários mais debochados de torcedores e jornalistas nas redes sociais, a incrível geração de Lukaku, Mertens, De Bruyne, Courtois e vários outros merece o respeito e o reconhecimento por ter colocado o país entre as melhores seleções do mundo. Se os resultados e as conquistas não apareceram, é porque houve quem conseguisse superar os Diabos Vermelhos nesses últimos anos. E vamos combinar que não é vergonha nenhuma ser derrotada pela ótima Itália de Insigne, Barella e Donnarumma.

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Também é preciso dizer que eu e você vimos uma grande partida em Munique. Primeiro por conta da força da Bélgica nos contra-ataques e na movimentação do 3-4-2-1 costumeiro de Roberto Martínez (que ganhou ainda mais força pelo lado esquerdo com a entrada de Doku). E depois por conta da mobilidade e da pressão pós-perda quase perfeita e pela exibição de alto nível de uma Itália intensa e envolvente. O 4-3-3 de Roberto Mancini se desdobrava num 3-2-5 com Spinazzola se lançando como uma flecha pelo lado esquerdo e Barella completando o quinteto ofensivo de muita mobilidade e fluidez. Se Donnarumma fez grandes defesas em chutes de Kevin De Bruyne e Lukaku, Insigne e Chiesa levaram perigo à meta belga explorando bem as costas dos alas Meunier e Thorgan Hazard. Não demoraria muito para a Squadra Azzurra tomar as rédeas da partida e abrir o placar com Barella aos 30 minutos.

Belgica vs Italia - Football tactics and formations

Roberto Martínez manteve o seu 3-4-2-1 costumeiro, mas viu sua equipe sofrer bastante com o volume de jogo de uma Itália em alta velocidade. Depois de um bom início de partida, a Squadra Azzurra tomou conta das ações e abriu o placar com Barella em bela jogada individual.

A essa altura, a Itália já empurrava a Bélgica para seu campo e tirava toda a possibilidade de Tielemans e Witsel acionarem Lukaku e Doku nos contra-ataques em velocidade no espaço deixado pelos laterais Di Lorenzo e Spinazzola. Barella chegava como um quinto atacante um pouco mais por dentro e se juntava ao trio ofensivo e a Spinazzola (importantíssimo no ataque e na defesa). O 3-4-2-1 de Roberto Martínez se transformava num 5-4-1 sempre que sua equipe era atacada, mas nem o “ônibus estacionado” na frente da área de Courtois conseguiu impedir que Insigne recebesse no lado esquerdo, avançasse até a entrada da área, se livrasse do marcador e acertasse belo chute no ângulo esquerdo. E o mais interessante é que o camisa 10 da Squadra Azzurra já havia feito um “ensaio” da mesma jogada poucos minutos antes de balançar as redes. Prova de que existe um padrão de jogo bem estabelecido na Azzurra.

A Itália já tomava conta da partida antes de Barella abrir o placar aos 30 minutos do primeiro tempo. O 4-3-3 de Roberto Mancini se desdobrava num 3-2-5 com muito volume de jogo para vencer a linha de cinco da Bélgica, encontrar espaços e construir a vitória. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Mas foi logo depois do (belíssimo) gol de Insigne que a Bélgica começou a mostrar sua força. Doku (um dos melhores em campo pelo lado dos Diabos Vermelhos) avançou pela esquerda e foi derrubado por Di Lorenzo dentro da área. Lukaku cobrou no meio do gol e deu um fio de esperança para o escrete de Roberto Martínez. A segunda etapa teve lances de perigo e boas chances de gol dos dois lados. Mas vale destacar como toda a equipe belga se mantiveram firmes no ataque e tentavam abrir espaços na defesa italiana com muita movimentação. Aos 15 minutos, Doku apareceu na esquerda e passou a bola para De Bruyne (que se lançou às costas de Bonucci e Chiellini). O meio-campo do Manchester City avançou até a linha de fundo e cruzou para a pequena área. Lukaku escorou, mas Spinazzola se agigantou na frente do camisa 9 para evitar aquele que seria o gol de empate da Bélgica.

Doku, De Bruyne e Lukaku eram as principais armas ofensivas de uma Bélgica que se lançou ao ataque no segundo tempo. E tudo sempre explorando bem os espaços que apareciam atrás da última linha da Itália. O gol de empate só não saiu por mero capricho do destino. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

É verdade que os minutos finais da partida desta sexta-feira (2) foram marcados por uma certa afobação da Bélgica nas trocas de passe no ataque e pelo controle maior da Itália após a saída de Spinazzola do jogo por conta de lesão. Não demorou muito para Roberto Mancini recuar as linhas da sua equipe e tirar todo o espaço de ação de Lukaku, De Bruyne e companhia. Por outro lado, também precisamos falar da noite um tanto azarada de Roberto Martínez, que se viu obrigado a sacar o meia Chadli dois minutos depois que o camisa 22 substituiu o ala Meunier. Acabou que a Squadra Azzurra teve muito mais calma e paciência para esperar o apito final e comemorar efusivamente a vaga nas semifinais da Eurocopa. A Bélgica, por sua vez, amargou a derrota e a eliminação diante de uma equipe melhor treinada e que joga um futebol muito mais atraente do que o seu. Resultado justo em Munique.

Italia vs Belgica - Football tactics and formations

Roberto Martínez tentou dar mais força ao ataque da sua Bélgica com uma espécie de 3-2-5, mas acabou tendo bastante azar na lesão de Chadli. O outro Roberto (o Mancini) fechou sua equipe com as entradas de Cristante e dos ítalo-brasileiros Rafael Tolói e Emerson Palmieri nos minutos finais.

Apesar do resultado justo (e até certo ponto esperado por este que escreve), precisamos aceitar que essa mesma Bélgica que eliminou o Brasil na Copa do Mundo de 2018 e que se mantém na liderança do ranking da FIFA há bastante tempo merece sim reconhecimento e respeito. Por mais que tudo leve a ele, nem tudo é só resultado e conquistas no futebol. Não é nenhum exagero afirmar que os Diabos Vermelhos já fazem parte do seleto “hall” das melhores seleções do mundo e têm tudo para ocupar o lugar deixado por equipes que passam por transições mais complicadas e demoradas. Lukaku, Kevin De Bruyne, Courtois, Vermaelen, Doku, Mertens, Chadli, Witsel, Tielemans e vários outros jogadores de destaque no cenário internacional formam sim uma ótima geração. Por mais que a Bélgica tenha falhado novamente, é muito possível pensar nesse mesmo grupo disputando a Copa do Mundo do Catar no ano que vem.

A Itália chega nas semifinais da Eurocopa depois de um longo e tenebroso inverno e vê em Roberto Mancini o símbolo de uma recuperação praticamente impensável há três anos atrás. Já são 32 jogos de invencibilidade, treze vitórias consecutivas e um futebol empolgante e de enorme qualidade. A partida contra a Espanha (que eliminou a Suíça no primeiro jogo do dia) será um daqueles duelos que vão entrar para a história do nosso velho, riquíssimo e sempre apaixonante esporte bretão.

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