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Algumas observações sobre a classificação da Inglaterra na Eurocopa e a “doce vingança” de Gareth Southgate

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como o English Team construiu a vitória sobre a Alemanha de Joachim Löw no estádio de Wembley

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / UEFA EURO 2020

No dia 26 de junho de 1996, a Alemanha superou a Inglaterra nas semifinais da Eurocopa (em pleno estádio de Wembley) na decisão por pênaltis após empate em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação. O peso da eliminação do English Team acabou caindo sobre os ombros de Gareth Southgate, então zagueiro do Aston Villa e titular absoluto da equipe comandada por Terry Venables, que acabou parando no goleiro Andreas Kopke na última sexta cobrança. Quiseram os deuses do velho e rude esporte bretão que vários personagens presentes nesse dia 26 de junho de 1966 se reencontrassem no mesmo estádio de Wembley nesta terça-feira (29) para um ajuste de contas. Gareth Southgate, agora treinador da Inglaterra, superarva a sempre poderosa Alemanha de Joachim Löw e Andreas Kopke (treinador de goleiros do escrete germânico) com uma vitória por 2 a 0 que lavou a alma de muita gente.

Embora a Inglaterra ainda esteja jogando muito abaixo daquilo que realmente pode jogar, é preciso dizer que a atuação coletiva do English Team beirou a perfeição ainda que não tenha empolgado muita gente (incluindo este que escreve). Ao espelhar a formação do seu adversário no jogo válido pelas oitavas de final da Eurocopa, o técnico Gareth Southgate conseguiu fazer com que seus jogadores levassem vantagem a partir do posicionamento no meio-campo e nos duelos físicos a partir da intermediária ofensiva. Nesse aspecto, Sterling sempre parecia um passo à frente de Ginter, Kimmich e Goretzka ao sair da esquerda para dentro buscando Harry Kane e abrindo o corredor para Luke Shaw. Na defesa, Walker e Trippier vigiavam muito bem as subidas de Gosens pelo lado esquerdo (uma das principais válvulas de escape do time de Joachim Löw). A partida era mais estudada do que jogada no primeiro tempo.

Alemanha vs Inglaterra - Football tactics and formations

Gareth Southgate espelhou o 3-4-3 da Alemanha e reforçou a marcação pelo lado direito da defesa da Inglaterra com Kalvin Phillips, Walker e Trippier vigiando Gosens, Thomas Müller e Toni Kroos de perto. O English Team levava vantagem nos duelos físicos e nas bolas lançadas para Sterling.

Vale aqui destacar a boa atuação dos Declan Rice e Kalvin Phillips na proteção do trio de zagueiros da Inglaterra e também no trabalho feito para sair da pressão exercida por Timo Werner, Thomas Müller e Havertz na saída de bola. Os dois volantes ajudavam a liberar Trippier e Luke Shaw para apoiar o ataque e se juntar a Saka, Sterling e Harry Kane na intermediária ofensiva. Ainda que seu time não empolgasse ou mostrasse seu verdadeiro potencial, Gareth Southgate fazia a aposta certa no duelo contra a Alemanha. É verdade que o início de partida em Wembley ficou marcado por um verdadeiro “God save the Queen” (a versão inglesa para o “Deus nos acuda”) sempre que o meio-campo germânico conseguia encaixar passe em profundidade para a velocidade de Timo Wener, Gosens ou Havertz. A equipe de Joachim Löw levava muito perigo quando acelerava no terço final e explorava a lentidão da zaga inglesa.

Mesmo assim, o risco parecia calculado e Gareth Southgate se manteve resoluto apesar da Alemanha levar perigo em finalizações de Timo Wener e Havertz defendidas pelo goleiro Pickford. Ao mesmo tempo, a Inglaterra se manteve impecável no aspecto mental e usou toda a atmosfera do estádio de Wembley ao seu favor para entender o contexto da partida e explorar os pontos fracos da equipe comandada por Joachim Löw. Mesmo com boa parte da torcida pedindo a entrada do jovem Jadon Sancho. Gareth Southgate mandou o ótimo Grealish para o jogo no lugar de Saka e viu o meia do Aston Villa (clube que defendia quando foi convocado para disputar a Eurocopa de 1996) participar da jogada do gol de Sterling (que foi jogar no lado direito). Aliás, é interessante notar como o camisa 10 do English Team arrastou toda a defesa alemã e abriu os espaços que Harry Kane, Luke Shaw e o já citado Grealish aproveitaram com muita eficiência.

Sterling recebe na intermediária e arrasta Rüdiger, Goretzka e Thomas Müller com ele até o momento de fazer o passe para Harry Kane na linha da grande área. A jogada do primeiro gol inglês mostra como Gareth Southgate pensou bem cada detalhe da partida. Foto: Reprodução / TV GLOBO / GE

O roteiro dessa nossa história seguia bastante favorável à Inglaterra. Principalmente depois que Thomas Müller desperdiçou chance impressionante de empatar a partida depois de passe açucarado de Havertz. E isso sem marcação e cara a cara com Pickford (num lance que fez muita gente se lembrar de Diego Souza na frente de Cássio na Libertadores de 2012). Aos 40 minutos da segunda etapa, em jogada muito parecida com a do primeiro gol, Luke Shaw rouba bola no meio-campo, passa para Grealish que cruza na medida para Harry Kane deslocar Neuer e decretar a vitória inglesa e colocar um pouco mais de açucar na “doce vingança” de Gareth Southgate. A Alemanha ainda ensaiou um “abafa” nos minutos finais, mas sem sucesso. A impressão que ficou foi a de que o escrete comandado por Joachim Löw dificilmente encontraria forças para superar a defesa inglesa mesmo com mais tempo de acréscimo.

Inglaterra vs Alemanha - Football tactics and formations

Joachim Löw tentou dar mais mobilidade ao setor ofensivo da sua Alemanha com as entradas de Gnabry, Sané, Emre Can e Musiala, mas acabou esbarrando na ótima atuação coletiva da Inglaterra. Os gols de Sterling e Harry Kane nasceram de jogadas trabalhadas e de muito estudo de Gareth Southgate.

Este que escreve ainda entende que essa Inglaterra ainda pode jogar muito mais do que vem jogando nessa Eurocopa. Por outro lado, também reconhece que fica bem difícil contestar os resultados obtidos por Gareth Southgate. Com ele no comando, o English Team conquistou a sua primeira vitória nos pênaltis em Copas do Mundo (sobre a Colômbia), chegaram na primeira semifinal em Mundiais desde 1990 e, de quebra, conquistou a primeira vitória em cima da Alemanha em jogo decisivo desde a final da Copa de 1966. Há sim vários pontos que podem e devem ser melhorados no trabalho. Mas não há como fechar os olhos para a consistência de uma Inglaterra segura de si e com uma baita força mental. Bem diferente da Alemanha de Joachim Löw. Na prática, o único bom momento da equipe germânica foi no jogo contra Portugal, quando Gosens teve espaços de sobra para chegar no ataque. E nada além disso.

A “doce vingança” de Gareth Southgate não poderia ter acontecido de outra forma. Todos os personagens daquele fatídico dia 26 de junho de 1996 estavam presentes nesta terça-feira (29), no mesmo estádio de Wembley. Mas talvez o grande mérito do treinador inglês tenha sido manter o foco na partida e não dar muita atenção para tabus e vinganças pessoais. Acabou que os torcedores ingleses puderam comemorar um ótimo resultado depois de um longo e tenebroso inverno.

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