Equipe organizada, jogadoras entrosadas e uma “Última Dança”: o que esperar da Seleção Feminina nos Jogos Olímpicos

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as chances da equipe de Pia Sundhage na busca pela inédita medalha de ouro em Tóquio

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Sam Robles / CBF

A única vez em que a Seleção Feminina não chegou entre as quatro melhores seleções dos Jogos Olímpicos foi em Londres 2012, quando a equipe comandada por Jorge Barcellos foi eliminada pelo Japão nas quartas de final. Apenas esse dado já seria suficiente para colocar o Brasil como forte candidato a medalha nas Olimpíadas de Tóquio. Mas não é só isso. Pia Sundhage conseguiu dar bastante consistência e um ótimo senso de jogo coletivo ao escrete canarinho com o trabalho iniciado em julho de 2019. De lá para cá, a treinadora sueca convocou 61 atletas e baseou a sua lista final de 22 jogadoras na geração de Marta, Formiga, Bárbara e Bruna Benites reforçada por nomes de extrema qualidade como Debinha, Andressinha, Júlia Bianchi, Rafaelle, Ludmila e Bia Zaneratto. Por mais que a Seleção Feminina ainda não passe a segurança devida contra equipes mais fortes, ela ainda impõe muito respeito nas adversárias.

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Mas o que esperar da equipe comandada por Pia Sundhage nos Jogos Olímpicos? É nítido que o elenco está fechado em torno da treinadora sueca e tenta executar seus conceitos com a máxima eficiência durante as partidas. Por outro lado, este colunista e muitos outros questionaram certas escolhas da técnica da Seleção Feminina nos últimos amistosos. É verdade que o 4-4-2/4-2-4 utilizado no escrete canarinho tem consistência, bastante organização e ajuda a explorar as características de Ludmila e Bia Zaneratto no um contra um durante os contra-ataques. O questionamento reside na escolha de uma “lateral-zagueira” na direita para liberar Tamires para o apoio do outro lado. É compreensível que Pia Sundhage pense sua equipe dessa maneira, mas as últimas partidas da Seleção Feminina mostraram uma certa falta de coordenação nos movimentos e a falta de “cacoete” de algumas jogadoras para a posição.

O 4-4-2/4-2-4 de Pia Sundhage possui bastante consistência e potencializa bastante as características de Ludmila e Debinha nos contra-ataques. A defesa ganhou solidez, mas as escolhas de alguns nomes para a lateral-direita mais bagunçam do que organizam a equipe dentro de campo. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Se a formação escolhida por Pia Sundhage para a Seleção Feminina explora bem as características de Ludmila, Bia Zaneratto e Debinha (sendo esta última a jogadora que mais cresceu tecnicamente com a treinadora sueca), o posicionamento de Marta no meio-campo ainda deixa algumas dúvidas. A nossa camisa 10 tem jogado aberta pelo lado esquerdo como uma espécie de “ponta-armadora” que centraliza para abrir o corredor para as descidas de Tamires e armar as jogadas com Andressinha e Formiga. No papel, a ideia tem se mostrado boa, mas a prática tem sido um pouco diferente, já que Marta já não tem a mesma velocidade de outros tempos e já mostrou certas dificuldades para fechar a segunda linha com quatro atletas à frente da área de Bárbara. Embora ainda coloque muito respeito nas adversárias, a nossa Rainha precisa ter com quem jogar para que seu futebol apareça pelo menos mais uma vez.

Marta tem jogado como uma espécie de “ponta-armadora” pelo lado esquerdo no 4-4-2/4-2-4 de Pia Sundhage. Por mais que a camisa 10 ainda imponha muito respeito às adversárias, ela já não tem a velocidade de outros tempos e precisa ter com quem jogar para render o esperado. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Embora os questionamentos e as incertezas em torno do desempenho da Seleção Feminina nos Jogos Olímpicos de Tóquio, é preciso reconhecer mais uma vez que Pia Sundhage montou uma equipe muito forte e que suas escolhas para a lista final (apesar dos protestos causados pela ausência de Cristiane da relação de convocadas) foram as mais coerentes possíveis quando se observa a maneira como ela construiu e moldou esse grupo. Podemos não gostar de uma jogadora ou outra, dessa ou daquela decisão no planejamento tático da equipe ou até mesmo das músicas que ia toca no violão. Faz parte do jogo e de todo o processo. O ponto aqui é compreender que há um processo com início, meio e fim na Seleção Feminina e com uma linha bem coerente e bem clara de raciocínio e de trabalho por parte da comissão técnica. A equipe é sim forte, consistente e tem plenas condições de chegar longe nos Jogos Olímpicos.

Selecao Feminina - Football tactics and formations

Pia Sundhage escolheu o 4-4-2/4-2-4 para a Seleção Feminina com uma “lateral-zagueira” pela direita (Poliana ou Bruna Benites) e Marta jogando como “ponta-armadora” pela esquerda. Apesar dos problemas apontados por este que escreve, a Seleção Feminina chega sim com bastante força nos Jogos Olímpicos.

Este que escreve já questionou várias das escolhas de Pia Sundhage para a Seleção Feminina ao longo dos últimos meses, mas reconhece que o trabalho realizado pela sueca tem muita consistência, qualidade e coerência. Há uma ideia de jogo bem clara sendo implementada ali, coisa que não se via há muito tempo no escrete canarinho. Mas é preciso ter em mente que, mesmo com três equipes se classificando para as quartas de final, a vida do escrete canarinho não será nada fácil. Ainda mais quando a equipe brasileira terá Holanda, China e Zâmbia pela frente no Grupo F dos Jogos Olímpicos. Vale lembrar que estamos falando de uma competição de tiro curto e que essas três primeiras partidas vão exigir um desempenho quase sem erros de Marta, Formiga, Bárbara e companhia. Mesmo assim, há como se sonhar alto em Tóquio. Pelo menos com a conquista de mais um pódio dependendo das circunstâncias.

Teremos também a realização da “Última Dança” de toda uma geração de jogadoras vitoriosas e de muita história no Futebol Feminino brasileiro. E queiram as deusas do velho e rude esporte bretão que todas elas deixem Tóquio com a medalha dourada no peito. Por outro lado, se o tão sonhado ouro não for conquistado, que todas essas brilhantes jogadoras voltem para a casa e recebam o devido reconhecimento por tudo o que fizeram pela modalidade no Brasil e no mundo. Até para que a nova geração tenha em quem se espelhar.

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