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Ferroviária suporta a “trocação” intensa com o Santos e se garante nas semifinais do Brasileirão Feminino

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Lindsay Camila e Tatiele Silveira no louco e emocionante empate na Vila Belmiro

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rebeca Reis / Staff Images Woman / CBF

Poucos jogos foram marcados por tanta “trocação” e tantas variáveis como esse empate entre Santos e Ferroviária (pelo menos na humilde opinião deste colunista). Mas é preciso deixar claro que as chances de gol nasceram muito mais dos problemas crônicos nos sistemas defensivos das duas equipes do que pelo planejamento das técnicas Lindsay Camila e Tatiele Silveira. O empate em 2 a 2 colocou as Guerreiras Grenás nas semifinais do Brasileirão Feminino e premiaram a maior efetividade do escrete de Araraquara diante de um verdadeiro comboio de chances desperdiçadas pelas Sereias da Vila em todo o jogo desta segunda-feira (23). Algumas delas claríssimas. Foi sim um jogo emocionante (meio louco, é verdade) e próprio para quem gosta de emoções fortes e um estilo mais aberto (a tal “trocação”), mas que também escancara todos as deficiências e carências das duas equipes em todos os setores.

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A partida desta segunda-feira (23) começou com o Santos tentando tomar a iniciativa e pressionando muito a última linha da Ferroviária com Amanda Gutierres, Sole James, Ketlen e Cristiane. Estas duas últimas se comportavam com duas meias de criação dentro do 4-2-2-2/4-2-4 de Tatiele Silveira e abriam o corredor para as subidas de Bruninha e Bia Menezes ao ataque. Do outro lado, as Guerreiras Grenás tentavam avançar as suas linhas mas abriam espaços generosos na frente da defesa. E jogar sem compactação é um prato cheio para qualquer equipe que tenha jogadoras com um mínimo de qualidade no passe. As Sereias da Vila viram Luciana se agigantar pelo menos três vezes na primeira etapa até que Cristiane escapou pela esquerda e encontrou Sole James quase na linha da pequena área no lance do primeiro gol do Santos. Impossível não notar os problemas no posicionamento defensivo das Guerreiras Grenás.

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Cristiane escapa pelo lado esquerdo e vê Ketlen e Sole James atacando os espaços abertos na defesa da Ferroviária no lance do primeiro gol do Santos. As Guerreiras Grenás sofreram demais com o posicionamento ruim na defesa e a falta de compactação. Foto: Reprodução / TikTok / Desimpedidos

A “trocação” ficou mais evidente no segundo tempo, quando Lindsay Camila corrigiu o posicionamento das suas atletas em campo (pelo menos um pouco) e apostou na entrada da experiente (e habilidosa) Aline Milene no lugar de Monalisa. O objetivo da treinadora das Guerreiras Grenás aqui era claro. Com Carol Tavares fazendo a lateral-direita e a camisa 7 mais à frente, a equipe de Araraquara teria como igualar os duelos e conter um pouco as subidas de Ketlen e Cristiane pelos lados do campo. Mas foi o golaço de Rafa Mineira que praticamente acabou com a concentração das Sereias da Vila. O sistema defensivo já não passava muita confiança com todo o desequilíbrio nas transições e concedia muito espaço que existia entre a última linha e o meio-campo. Tanto que a camisa 17 teve tempo suficiente para ajeitar o corpo, ver o posicionamento da goleira Michelle e acertar um belo chute.

Rafa Mineira tem todo o tempo do mundo para ajeitar a bola e o corpo, observar o posicionamento de Michelle e desferir o chute que vai resultar num dos mais belos gols dessas quartas de final. O Santos pecou demais no posicionamento defensivo. Foto: Reprodução / TikTok / Desimpedidos

É verdade que as Sereias da Vila sentiram demais o gol de empate das Guerreiras Grenás. Mas a “trocação” não parou. Se o escrete de Tatiele Silveira pressionava para tentar recuperar a vantagem que levaria o duelo para a decisão na marca de cal, as comandadas de Lindsay Camila encontravam espaços generosos na frente da defesa do Santos. Ainda que Day Silva tenha feito outro belo gol e recolocado o Peixe em vantagem, Aline Milene foi perfeita no bote em cima de Fê Palermo após Sochor roubar a bola na intermediária e fazer o passe em profundidade. E cabe aqui a crítica (construtiva): a camisa 14 das Sereias da Vila é promissora, tem muito talento, mas JAMAIS poderia ter deixado a adversária ter tomado a sua frente. Assim como Day Silva e Michelle não poderiam ter ficado no “deixa que eu deixo” num lance como esses. Falha completa da zaga santista e méritos totais de Aline Milene.

Fê Palermo não segurou, Day Silva e Michelle apenas olharam e Aline Milene mostrou oportunismo e determinação para aproveitar o passe de Sochor e marcar o gol da classificação da Ferroviária. Ótima leitura da camisa 7 e bobeira da zaga das Sereias da Vila. Foto: Reprodução / TikTok / Desimpedidos

Santos e Ferroviária continuaram a “trocação” até o apito final e o grito de alívio das Guerreiras Grenás. Ainda que sua equipe tenha seríssimos problemas defensivos, Lindsay Camila tem seus méritos. Leu bem a movimentação do quarteto ofensivo das Sereias da Vila no primeiro tempo e corrigiu o equívoco na escalação inicial com mexidas que não desfizeram seu 4-4-2/4-2-4 costumeiro, mas que deixaram a sua equipe um pouco mais consistente. Outro ponto importante está na parte mental. O Santos mostrou muitas dificuldades para controlar os nervos e nem mesmo as jogadoras mais experientes conseguiram segurar a onda. Ketlen prendeu demais a bola na esquerda e Cristiane (apesar da ótima atuação nos primeiros 45 minutos na Vila Belmiro) se mostrou nervosa demais. O Santos pode (e deve) reclamar de dois impedimentos mal marcados. Mas também deve lamentar as muitas oportunidades desperdiçadas.

A sensação que fica é a de que a Ferroviária está confiante e motivada para a sequência do Brasileirão Feminino. No entanto, a atuação na partida desta segunda-feira (23) liga o alerta para as semifinais contra o Corinthians. Por mais que a equipe de Lindsay Camila tenha se saído bem contra o Santos e conquistado uma Libertadores Feminina (para a surpresa de muita gente), a verdade é que todos os problemas no sistema defensivo podem ser fatais contra um Corinthians muito técnico e muito seguro de tudo aquilo que faz em campo. Não será nada fácil segurar o atual campeão brasileiro e paulista apenas na base da vontade e da “trocação” e concedendo tantos espaços na frente da sua última (e pesada) linha defensiva. Fora isso, as perseguições mais curtas de Lindsay Camila não encaixaram contra o Santos e a Ferroviária dependeu quase que unicamente do brilho da goleira Luciana. Muito pouco.

Fica aqui a expectativa por mais quatro grandes jogos nesse Brasileirão Feminino, competição que mostrou o aumento claro do nível técnico da modalidade aqui por essas bandas. O que ninguém entende é como a CBF gosta de estragar o próprio produto. A arbitragem do confronto entre Santos e Ferroviária foi tenebrosa e de um nível baixíssimo. Foram pelo menos três impedimentos muito mal marcados. E a ausência do VAR numa partida desse tamanho é simplesmente imperdoável. Menos mal que ele vai dar as caras nas semifinais.

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