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Seleção Olímpica conquista o bicampeonato em Tóquio e deixa legado importantíssimo para o futuro do nosso futebol

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação dos comandados de André Jardine na decisão da medalha de ouro contra Espanha

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Nunca foi sorte. Sempre foi Exú. Sempre foi Deus. Sempre foi trabalho e talento. Garra e dedicação. Com algumas boas doses de angústia e ranger de dentes, é claro. A Seleção Olímpica enfrentou todo tipo de dificuldades até colocar a tão desejada medalha de ouro no peito pela segunda vez na sua história. A partida contra a Espanha (que contava com vários semifinalistas da última Eurocopa) teve contornos dramáticos e só foi decidida no tempo extra com o gol de Malcom após lançamento de um incansável Antony. A equipe comandada conquista o bicampeonato olímpico consecutivo (igualando feito de Grã-Bretanha, Uruguai, Hungria e Argentina) e nos deixa um legado de suma importância para o futuro. Depois desse sábado (7) dourado em Yokohama, será muito difícil não ver nomes como Bruno Guimarães, Antony, Guilherme Arana, Matheus Cunha e Malcom na Seleção Brasileira principal num futuro bem próximo.

Mas é preciso dizer que o escrete comandado por André Jardine demorou para entrar no jogo. Isso porque a Espanha marcava forte e pressionava muito a saída de bola da Seleção Olímpica. depois da metade da primeira etapa, Richarlison, Antony, Claudinho e Matheus Cunha fizeram o “feitiço virar contra o feiticeiro” ao fecharem as linhas de passe dos ótimos Eric García e Pau Torres na defesa espanhola. E com Bruno Guimarães, Daniel Alves, Guilherme Arana e Douglas Luiz firmes na marcação, o escrete canarinho começou a levar vantagem nos duelos na base da imposição física. Vale destacar que a Seleção Olímpica não se deixou abater pelo pênalti desperdiçado pelo “Pombo” e manteve o plano de André Jardine. O lance do gol de Matheus Cunha mostra bem isso. Richarlison arrasta a marcação, Claudinho cruza, Daniel Alves acredita até o fim e serve o camisa 9 que ajeita com categoria e vence Unai Simón.

Richarlison arrasta a marcação e abre o espaço para Claudinho cruzar para a área. Daniel Alves acredita no lance até o fim e serve Matheus Cunha. O camisa 9 domina o passe se livrando da marcação e acerta o canto esquerdo. Golaço com a marca da Seleção Olímpica. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

O Brasil teve duas chances claras para aumentar a vantagem sobre a Espanha no início do segundo tempo com Antony e Richarlison, mas os dois acabaram parando no ótimo Unai Simón. Poucos minutos depois, o escrete de Luis de la Fuente (que havia ganhado sangue novo com as entradas de Soler e Bryan Gil nos lugares de Merino e Asensio) adiantou ainda mais a sua marcação e consegui empatar a partida explorando o ponto mais frágil da equipe de André Jardine: a cobertura das laterais. Bola lançada às costas de Guilherme Arana, jogada pela linha de fundo gerando profundidade, cruzamento às costas de Daniel Alves e conclusão certeira de Oyarzabal. Até o final do tempo normal em Yokohama, a Espanha seguiria insistindo com lançamentos mais longos pelos lados do campo. Não foi por acaso que o treinador brasileiro recuou Antony para jogar como uma espécie de quinto defensor após o empate.

Soler e Bryan Gil construíram a jogada de empate da Espanha explorando a cobertura nas laterais, ponto mais fraco da Seleção Olímpica. Depois de sofrer o gol de empate, André Jardine recuou Antony para jogar mais próximo de Daniel Alves quase numa linha de cinco defensores. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Luis de la Fuente dava mais consistência ao seu time com mexidas pontuais e a entrada de jogadores descansados num segundo tempo de imposição pura. Do outro lado, André Jardine apostava alto ao manter o mesmo time que iniciou a partida em campo. Mesmo com todos os atletas brasileiros sentindo demais o cansaço e a intensidade do seu adversário. A primeira mexida na Seleção Olímpica aconteceu apenas no intervalo para a prorrogação com a entrada de Malcom no lugar de Matheus Cunha. O jogador do Zenit deu muito mais movimentação pelo lado esquerdo e indicava o óbvio: o Brasil precisava de fôlego novo e de jogadores descansados. Reinier substituiu Claudinho e foi jogar mais próximo de Richarlison no mesmo 4-4-2 de Jardine. Mas o gol do bicampeonato olímpico saiu em contra-ataque de manual puxado pelo incansável Antony e concluído por Malcom depois de passar por Jesús Vallejo sem dificuldades.

Até Malcom fazer o gol do bicampeonato da Seleção Olímpica, André Jardine só havia feito duas substituições na sua equipe. Mesmo assim, a entrada do camisa 17 e de Reinier foram suficientes para que o Brasil recuperasse o ritmo e confirmasse a vitória em Yokohama. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Há como se questionar as escolhas e as suas apostas de altíssimo risco de André Jardine num jogo que exigiu demais da Seleção Olímpica nos aspectos físicos e mentais. Difícil não notar que Richarlison sentiu demais o pênalti perdido e acabou errando tudo o que tentou daí para frente. Ou não perceber que Douglas Luiz e Bruno Guimarães precisavam de ajuda na perseguição a Olmo, Rafa Mir, Soler e Bryan Gil no meio-campo. Fora as chances desperdiçadas quando o Brasil vencia a partida por 1 a 0 no início do segundo tempo. Por outro lado, também é possível dizer que sorte estava do lado do escrete de André Jardine diante das duas bolas no travessão que a Espanha colocou no travessão no final do tempo regulamentar. Mesmo assim, o gol de Malcom praticamente destruiu o adversário no aspecto mental e a Seleção Olímpica apenas esperou o apito final para comemorar a tão sonhada medalha de ouro.

A vitória sobre a Espanha deve sim ser comemorada e valorizada. Não somente pela conquista do bicampeonato olímpico, mas pelo simples fato do adversário deste sábado (7), em Yokohama, jogar um futebol de altíssimo nível técnico e exigir muito da equipe de André Jardine. Matheus Cunha, Guilherme Arana, Richarlison, Antony, Claudinho, Bruno Guimarães e vários outros jovens conquistaram um título que nomes como Bebeto, Romário, Neto, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo não conseguiram. Ao mesmo tempo, o legado que essa Seleção Olímpica deixa para um futuro bem próximo é imenso. Todos os jogadores que participaram da conquista da medalha de ouro têm condições de fazer parte da equipe de Tite nas Eliminatórias ou até numa Copa do Mundo. Fora isso, também fica a certeza de que é possível ser campeão jogando de maneira ofensiva e intensa, mas sem abrir mão do equilíbrio e da consistência defensiva.

Diminuir o feito da Seleção Olímpica em Tóquio é fechar os olhos para o tamanho do feito alcançado por André Jardine, comissão técnica e jogadores. É ignorar o legado que esse time deixa para os próximos anos do nosso futebol. Ao contrário do que muita gente pensa, a nova geração de atletas vem sim muito forte, com muita fome de títulos e com uma qualidade enorme. Guilherme Arana, Matheus Cunha, Bruno Guimarães, Malcom e Antony são alguns nomes que saem dessa Olimpíada com a moral na estratosfera. O que é uma ótima notícia.

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