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Ataque rápido, mobilidade e foco nos jogadores: as ideias táticas de Antonio “El Turco” Mohamed

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como o treinador argentino pode aplicar seus conceitos e suas ideias num estrelado Atlético-MG

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Pedro Souza / Atlético-MG

Anunciado oficialmente no dia 12 de janeiro, Antonio “El Turco” Mohamed chega ao Atlético-MG credenciado pelos ótimos trabalhos realizados no futebol mexicano (onde teve boas passagens por Tijuana, América e Monterrey). Embora não seja um grande conhecido do torcedor brasileiro (principalmente o atleticano), o argentino de 51 anos mostrou nos clubes por onde passou um estilo de jogo baseado na flexibilidade, no respeito às características dos jogadores e num ataque altamente veloz e vertical. Difícil não ver em “El Turco” alguns dos elementos implementados por Cuca na temporada passada no Galo campeão mineiro, brasileiro e da Copa do Brasil. Esse pode ter sido o critério principal da diretoria do Atlético-MG na escolha por Antonio Mohamed. Afinal, estilos de jogo semelhantes indicam uma adaptação mais fácil e menos trabalhosa entre atletas, comissão técnica, dirigentes e torcedores.

É bem verdade que “El Turco” se mostrou um treinador muito flexível no que se refere a formações e desenhos táticos. Diferente de vários treinadores que possuem estilos bem particulares de pensar o futebol, a característica dos jogadores que tem à disposição no elenco é colocada à frente de qualquer sistema. E essa postura não é melhor nem pior do que qualquer outra. É apenas uma maneira diferente de se enxergar o jogo. É exatamente por conta desse modus operandis que Antonio Mohamed se coloca como um treinador mais flexível do que a média e que consegue se adaptar a diferentes contextos. Para ele, os jogadores são muito mais importantes do que qualquer sistema tático. Guardem essa informação.

Apesar do perfil mais flexível com relação a sistemas, Antonio Mohamed tem algumas preferências e uma maneira bem característica de jogo. Não é um treinador que preza a posse da bola como Paulo Sousa ou Paulo Pezzolano. Pelo contrário. Ele prefere que suas equipes sejam mais objetivas, mais velozes e mais verticais. Em organização defensiva, “El Turco” gosta de times agressivos e de muito combate ao adversário. Ao mesmo tempo, tem predileção por zagueiros e goleiros com bom passe e laterais de mais mobilidade pelo campo.

Seu estilo é tão mutante que algumas das suas principais equipes adotaram formações completamente diferentes ao logo dos anos. No Monterrey campeão do Apertura em 2019, por exemplo, Antonio Mohamed apostou num 5-2-3 de muita marcação na frente da área e altíssima velocidade nos contra-ataques. E aqui é possível ver alguns dos conceitos trabalhados nas defesas das suas equipes. Ao invés de uma marcação mais fixa, “El Turco” aposta em perseguições e muita intensidade na retomada da posse. Seja com uma linha de cinco ou num 4-4-2 (maneira preferida com que o argentino gosta de organizar o sistema defensivo das suas equipes), seus conceitos se fazem presentes no pouco espaço concedido ao adversário. Isso pode ser feito dentro de uma postura mais reativa e conservadora ou com suas linhas mais adiantadas. Tudo, para Antonio Mohamed, depende do contexto de cada partida.

Antonio Mohamed se caracterizou pela versatilidade e pela flexibilidade nas equipes que treinou. No Monterrey campeão do Apertura de 2019, “El Turco” apostou num 5-2-3 de muita intensidade no combate defensivo e alta velocidade nas transições ofensivas. Foto: Reprodução / YouTube / Liga BBVA MX

É interessante notar que o Atlético-MG não é um total desconhecido de Antonio Mohamed. Os dois já se encontraram nas quartas de final da Libertadores de 2013 no histórico jogo que marcou a “canonização” de São Victor. Na ocasião, “El Turco” treinava o Tijuana e armava o escrete mexicano num 4-2-3-1 de muita velocidade e boa compactação defensiva. O colombiano Riascos tinha liberdade para sair da esquerda para dentro e circular por todo o campo. Exatamente como Cuca fez (em 2021) com Vargas, Zaracho e Keno em vários jogos do Galo no Brasileirão e na Copa do Brasil. Em entrevista ao programa “No Mundo da Bola” da TV Brasil no último domingo (23), o diretor de futebol Rodrigo Caetano explicou porque o Galo escolheu Antonio Mohamed.

As características de jogo que ele possui, das equipes que ele já dirigiu, elas se assemelham muito ao Cuca. Se assemelham muito ao Eduardo Coudet, que trabalhou comigo no Internacional. E segundo o próprio Coudet, o grande mentor dele era o Antonio Mohamed. (…) A gente entende aqui no Galo o trabalho realizado foi excelente e que nós temos que ter a preservação dessas informações, dessa metodologia de trabalho e que o treinador pudesse vir com uma equipe técnica um pouco mais reduzida ao invés de fazer uma grande reformulação.

“El Turco” e Atlético-MG se encontraram nas quartas de final da Libertadores de 2013. O Tijuana jogava num 4-2-3-1 que dava liberdade para Riascos jogar por todo o campo e mostrava um estilo de jogo semelhante a Cuca, técnico do Galo naquele ano. Foto: Reprodução / FOX Sports Brasil

Também é interessante notar que as equipes de Antonio Mohamed possuem muito volume de jogo na hora de atacar. No América campeão do Apertura de 2014, o argentino apostou num 4-4-2 mais ortodoxo, mas que trabalhava muito bem os conceitos de profundidade e amplitude e que costumava consagrar os centroavantes das suas equipes. Sempre há pelo menos dois jogadores enfiados entre os zagueiros e outros abrindo o campo para esgarçar as defesas adversárias. Todos os jogadores buscam explorar as costas da última linha. O posicionamento de cada um deles prova isso. A ordem é atacar o espaço e partir em direção ao gol o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, o chamado “primeiro volante” exerce um papel fundamental no time na ligação com o ataque. É uma das poucas diferenças com relação ao que Cuca pedia de Allan, por exemplo. Ao invés de cadência, mais objetividade.

Pelo menos três jogadores enfiados entre os zagueiros, outros dois abrindo o campo e um dos volantes buscando o passe mais longo às costas da defesa adversária. O America do México executava bem os conceitos de Antonio “El Turco” Mohamed. Foto: Reprodução / YouTube / Club America

Há semelhanças e há diferenças entre Cuca e Antonio Mohamed. Nenhum treinador é igual ao outro. E isso é perfeitamente normal. Mas é preciso lembrar que, mesmo trabalhando alguns dos conceitos do seu antecessor, o argentino vai precisar de tempo e paciência para se adaptar ao futebol brasileiro e implementar seu estilo num Atlético-MG que promete brigar por títulos ainda mais importantes em 2022. Ao mesmo tempo, é difícil não enxergar no Galo o maior desafio da carreira de “El Turco”. A começar pelo calendário insano. O Atlético-MG provavelmente vai chegar perto das setenta partidas no ano com o Campeonato Mineiro, a Copa do Brasil, o Brasileirão e a Libertadores. Saber administrar o elenco no meio desse pandemônio chamado futebol brasileiro será uma tarefa complicadíssima. Ainda mais para quem vem de um contexto completamente diferente do nosso. Não é uma tarefa fácil!

Mas certo é que Antonio “El Turco” Mohamed tem plenas condições de manter o Galo na briga por títulos importantes nessa temporada. A base foi mantida e a diretoria vem buscando reforços pontuais para esta ou aquela posição. E vale lembrar que o último trabalho do argentino foi no mesmo Monterrey que deu um calor danado no Liverpool no Mundial de Clubes da FIFA em 2019. Ou seja, por mais que seja um desconhecido, “El Turco” pode surpreender muita gente com seu trabalho.

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