Pelo Brasileirão Feminino, Santos vira pra cima do São Paulo na base da concentração e da maturidade

Luiz Ferreira destaca as estratégias de Lucas Piccinato e Guilherme Giudice no clássico deste domingo (6) na coluna PAPO TÁTICO

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Santos FC

Era de se esperar que as equipes femininas de Santos e São Paulo fizessem um clássico extremamente pegado e disputado debaixo de um sol escaldante na Arena Barueri. Exatamente do jeito que conta a história deste que é um dos clássicos mais tradicionais do país. E se o primeiro tempo ficou marcado por um futebol bem abaixo do esperado, as duas equipes nos brindaram com uma segunda etapa empolgante e cheia de lances de bom futebol. Acabou que as Sereias da Vila (mesmo tendo saído atrás no placar) tiveram calma e concentração para encontrar os caminhos na defesa do escrete tricolor para construir uma virada importantíssima. Também fica a lição para o time comandado por Lucas Piccinato. Por mais que Gláucia tenha desperdiçado um pênalti e que a arbitragem tenha anulado gol de Lauren, o recuo excessivo do São Paulo acabaria sendo fatal para as pretensões da equipe.

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O forte calor em Barueri e o horário da partida (14 horas) prejudicaram bastante o desempenho de Santos e São Paulo. Tanto que as duas equipes mostravam bastante dificuldade para criar jogadas e colocar intensidade nas transições. Se Cristiane precisava recuar a todo momento para auxiliar na armação das jogadas, Gláucia permanecia longe da área e deixava Duda isolada no campo ofensivo. O Tricolor Paulista só cresceu no jogo depois que sua camisa 9 passou a jogar mais por dentro. Mas daí surgiram outros problemas: as tomadas de decisão. Com a marcação mais adiantada, o escrete comandado por Lucas Piccinato até conseguiu criar problemas para as Sereias da Vila na saída de bola, mas as jogadoras pecavam demais nos momentos decisivos. O frame abaixo mostra o momento em que Gláucia arrisca chute de longe quando poderia até avançar um pouco mais.

Gláucia recebe a bola na intermediária e tem espaço para avançar mais um pouco, mas prefere o chute a gol que seria bem defendido por Michelle. Ao redor da camisa 9, quatro jogadoras do São Paulo partiam em condição de receber o passe e trabalhar melhor a jogada de contra-ataque. Foto: Reprodução / Band

Cristiane ainda desperdiçaria grande chance de abrir o placar no primeiro tempo após pela jogada de Thaisinha pelo lado direito (setor onde o Santos levava mais perigo). Após o intervalo, no entanto, o panorama mudou um pouco. O São Paulo adiantou mais a sua marcação e conseguiu balançar as redes de Michelle com Natane cobrando falta com extrema categoria da entrada da área. Gláucia ainda desperdiçaria um pênalti e a chance de aumentar ainda mais a vantagem na Arena Barueri. E foi aí que o técnico Guilherme Giudice percebeu que sua equipe precisava de quem colocasse a bola no chão e trabalhasse mais as jogadas. Ketlen, Amanda Gutierrez e Gaby Soares entraram muito bem na partida e ajudaram a abrir a defesa adversária com os famosos passes que “quebram as linhas” e muita movimentação diante de um São Paulo recuado até demais para quem vencia o jogo.

Ketlen e Gaby Soares deram outra dinâmica ao meio-campo santista no segundo tempo e ajudaram a organizar as jogadas com passes certeiros e ótima visão de jogo. Do outro lado, o São Paulo parece ter sentido o pênalti desperdiçado por Gláucia e baixou o nível de intensidade nas jogadas de ataque. Foto: Reprodução / Band

O time de Lucas Piccinato ainda teve forças para chegar ao ataque na base das bolas longas e ainda teria gol de Lauren anulado por impedimento que este que escreve não marcaria nem aqui e nem em Vênus. Só que as mexidas de Guilherme Giudice surtiram o efeito desejado e a defesa do São Paulo simplesmente se desmanchou após o gol marcado por Amanda Gutierres (em jogada iniciada por Ketlen e que contou com belíssimo cruzamento de Larissa). O grande problema do Tricolor Paulista deixou de ser o recuo excessivo e passou a ser a falta de concentração e calma para resolver as jogadas no ataque. Tanto que Gaby Soares e Ketlen seguiriam ditando o ritmo do meio-campo das Sereias da Vila e desarrumando completamente a última linha defensiva com ótimos passes. Enquanto o Santos mostrava força mental, o São Paulo sofria para manter os nervos no lugar. E isso seria fatal.

Larissa recebe belo passe de Ketlen e faz o cruzamento para Amanda Gutierres (que vinha por trás da defesa) balançar as redes de Carla. As mexidas de Guilherme Giudice foram determinantes para que as Sereias da Vila retomassem o controle da partida e construísse a virada dentro da Arena Barueri. Foto: Reprodução / Band

O time do São Paulo pode e deve reclamar do gol mal anulado de Lauren (na opinião deste que escreve) e lamentar a penalidade desperdiçada por Gláucia quando vencia a partida. Mas também deve ter em mente que o recuo excessivo no segundo tempo foi fatal para as pretensões da equipe. Não somente pela tabela do Brasileirão Feminino, mas pelo estilo de jogo que o adversário passou a adotar após as mexidas do técnico Guilherme Giudice. E não é a primeira vez que isso acontece. O Tricolor Paulista já desperdiçou pontos importantes por não saber controlar as partidas e por não manter a cabeça no lugar depois de qualquer adversidade. E isso é o que diferencia grandes equipes das razoáveis. O time do São Paulo tem grandes jogadoras, mas ainda precisa dessa “casca” para finalmente deslanchar no cenário nacional. Fica o aprendizado para o futuro.

Pontos que sobram no experiente time do Santos. Não por acaso, as Sereias da Vila lideram o Brasileirão Feminino Série A1 com 18 pontos. E numa competição tão equilibrada como essa, ter concentração e maturidade é meio caminho andado para resolver as partidas sem sofrer tanto. Ainda mais no calor de Barueri.

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