Queda de rendimento de um lado e muita organização do outro: algumas impressões da vitória do Santos sobre o São Paulo

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como Fernando Diniz foi superado por Cuca no duelo tático deste domingo (10) no Morumbi

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Ivan Storti / Santos FC

Este que escreve já falou mais de uma vez que toda análise sobre qualquer equipe de futebol do mundo deve ser relativizada e que apontar erros e acertos diante de todo o contexto imposto pandemia de COVID-19 é algo um pouco complicado. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais nossos times estejam oscilando mais do que o normal. Exatamente como o São Paulo de Fernando Diniz. Impossível não perceber que a eliminação da Copa do Brasil para o Grêmio parece ter causado um certo impacto no elenco. O toque de bola não é mais o mesmo, o time já não aplica mais a mesma intensidade e alguns jogadores já não conseguem mais render o que rendiam. A derrota por 1 a 0 para um Santos composto por reservas (e extremamente organizado e ligado em cada jogada) pode ser explicada por estes e outros fatores. O time de Cuca parece ter se adaptado melhor ao contexto e vem colhendo os frutos.

Os números do SofaScore mostram que o São Paulo teve quase 70% de posse de bola e que finalizou incríveis 26 vezes. Destas, no entanto, apenas cinco foram na direção do gol de João Paulo. Por mais que as estatísticas mostrem a superioridade dos comandados de Fernando Diniz em quase toda a partida, o que se viu na prática foi a aplicação tática e a organização de um Santos que negou espaços, se fechou no seu campo e esperou os melhores momentos para chegar ao ataque. Tudo realizado a partir do 4-3-3/4-1-4-1 organizado por Cuca. Vinícius, Jobson e Sandry fechavam a entrada da área e acionavam Arthur Gomes e Lucas Braga pelos lados do campo assim que o escrete santista recuperava a posse. Numa dessas poucas oportunidades (apenas sete finalizações a gol em toda a partida), Jobson aproveitou o cochilo da defesa do São Paulo para abrir o placar no início do segundo tempo.

Difícil não notar a queda de rendimento de uma equipe que ainda tem certa folga na liderança do Brasileirão e que jogava o melhor futebol do país de acordo com parte da imprensa esportiva. É bem verdade que as atuações contra o Atlético-MG e o Flamengo encheram os olhos por conta da maneira como a equipe do Morumbi executava os conceitos de Fernando Diniz. O que pouca gente viu (e vê) é que algumas das jogadas do Tricolor Paulista começaram a ficar manjadas. Não foi por acaso que Cuca orientou que o Santos fechasse o meio-campo e tirasse o espaço de Gabriel Sara, Igor Gomes e (principalmente) o veterano Daniel Alves. O jogo mais truncado (foram quarenta faltas em toda a partida) e a já mencionada posse de bola sem efetividade do escrete de Fernando Diniz contribuíram muito para que a estratégia de Cuca fosse mais bem sucedidada na partida deste domingo (10) no Morumbi.

Santos vs Sao Paulo - Football tactics and formations

Cuca fechou o meio-campo do Santos com Vinícius, Jobson e Sandry na frente da última linha para negar espaços a Daniel Alves, Gabriel Sara e Igor Gomes. A equipe abriu mão da posse da bola e viu os comandados de Fernando Diniz encontrarem muitas dificuldades para criar jogadas de ataque.

A entrega e a intensidade colocada na marcação e nas perseguições individuais (de curta distância) fizeram com que o time do Santos diminuísse um pouco esse ímpeto depois dos vinte minutos da segunda etapa. Tanto que Cuca promoveu a entrada de Diego Pituca, Alison, Pará, Luan Peres e Kaio Jorge com o objetivo de colocar “sangue novo” na equipe. Ao mesmo tempo, Fernando Diniz empilhava atacantes e tentou abrir o jogo com as entradas de Gonzalo Carneiro e Tréllez numa espécie de 3-2-5 que esbarrou (mais uma vez) no eficiente bloqueio defensivo do Peixe. E quando o Tricolor Paulista conseguiu superar esse obstáculo, o time esbarrou em mais uma atuação segura do goleiro João Paulo (o melhor em campo junto com Jobson e Madson na opinião deste que escreve. O Santos mostrava a força de um elenco comprometido com as ideias do seu treinador e que soube como frear o ímpeto de um forte adversário.

O Santos de Cuca mostra que é uma equipe muito competitiva mesmo jogando com uma equipe completamente alternativa. E não é exagero nenhum afirmar que o Peixe tem todas as condições de conquistar a vaga na final da Libertadores contra o vitorioso e sempre perigoso Boca Juniors. Ainda mais podendo contar com nomes como Marinho, Soteldo, Alison e Diego Pituca na partida da próxima quarta-feira (13). Já o São Paulo começa a ver seus adversários na briga pelo título brasileiro subindo na tabela da competição. Após a eliminação da Copa do Brasil (onde a equipe ficou marcada pela posse de bola estéril nas duas partidas contra o Grêmio), o Tricolor Paulista não conseguiu recuperar o ímpeto das partidas contra o Botafogo e o Atlético-MG. Muito por conta da ausência de Luciano, justamente o responsável por fazer a ligação entre o meio-campo e o ataque no escrete de Fernando Diniz.

Mais uma vez: toda análise de qualquer equipe de futebol deve ser relativizada por causa do contexto em que estamos inseridos. Mesmo assim, o São Paulo deixa a impressão que o elenco ainda não se recuperou dos últimos tropeços. Não somente por conta de questões técnicas, desfalques e eliminações. Fernando Diniz precisa mais uma vez se reinventar e recolocar sua equipe nos trilhos para não entornar o caldo de vez.

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