Rogério Ceni adapta sua equipe ao contexto do jogo e vê Flamengo quebrar jejum de vitórias no Brasileirão

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória sobre o Goiás e as estratégias do comandante rubro-negro

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

A grande missão do Flamengo na partida contra o Goiás era reencontrar o caminho das vitórias e se manter vivo na briga pelo título brasileiro. É bem verdade que o time comandado por Rogério Ceni ainda apresenta alguns problemas crônicos (como as falhas na recomposição defensiva e o posicionamento da última linha quando a equipe é atacada). Mesmo assim, os 3 a 0 em cima de um Esmeraldino cada vez mais desesperado e sem muito rumo nessa temporada. No entanto, o ponto mais importante do triunfo desta segunda-feira (18) foi o fato de Rogério Ceni ter adaptado a equipe do Flamengo às circunstâncias que o confronto exigia. E a grande sacada foi o posicionamento de Arrascaeta logo atrás de Gabigol (num 4-2-3-1 muito parecido com o que o catalão Domenèc Torrent usou no Fla nos seus melhores dias à frente do time rubro-negro) e a entrada de Diego Ribas no meio-campo ao lado de Willian Arão.

A mudança no desenho tático do Flamengo permitiu que os principais jogadores do escrete de Rogério Ceni tivessem espaço para circular entre as linhas do 3-5-2 montado por Augusto César no Goiás e conseguissem ocupar melhor o campo de ataque. Gabigol aproveitava bem a movimentação de Arrascaeta na frente da zaga esmeraldina, Bruno Henrique e Everton Ribeiro encontravam espaços para entrar na área em diagonal e abriam espaço para as chegadas de Isla e Filipe Luís. Mais atrás, Diego Ribas se lançava ao ataque com um “quarto meia” e também abria espaços para seus companheiros de equipe. Exatamente como no primeiro gol do Flamengo na partida e no gol (bem) anulado de Gabigol no início do primeiro tempo. Enquanto Diego aparecia na frente e dava opção de passe, o camisa 9 puxava a marcação adversária e abria o espaço para o uruguaio receber o passe com liberdade e abrir o placar em Goiânia.

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Gabigol puxa a marcação, Bruno Henrique e Everton Ribeiro abrem o campo, Diego Ribas avança e faz o passe para Arrascaeta abrir o placar no Estádio da Serrinha. A grade sacada de Rogério Ceni foi a opção pelo 4-2-3-1 para povoar o ataque e aproveitar os espaços na frente da zaga do Goiás. Foto: Reprodução / SPORTV

A opção de Rogério Ceni por Arrascaeta por dentro (logo atrás de Gabigol) também foi importante por mostrar ao treinador que é possível se adaptar ao contexto de cada partida. Com o Goiás jogando com três zagueiros e uma linha de cinco com o recuo dos alas para junto da defesa, o Fla teve superioridade em vários momentos da partida. Tudo porque Bruno Henrique e Everton Ribeiro passaram a ter a companhia do camisa 14 na armação das jogadas. Com o time menos estático, a qualidade individual dos jogadores fluiu e acabou fazendo a diferença numa partida em que o Flamengo cometeu diversas falhas coletivas. Mesmo assim, a formação (a mesma utilizada por Domenèc Torrent nas goleadas sobre o Corinthians e o Independiente del Valle) acomodou bem os talentos de Arrascaeta, Gabigol e demais jogadores. E o ataque ganhou ainda mais dinâmica com Diego Ribas fazendo a bola chegar na frente com qualidade.

Com o Flamengo jogando no 4-2-3-1, o uruguaio Arrascaeta tinha muito mais liberdade para circular entre as linhas e puxar a marcação da zaga do Goiás. Ao mesmo tempo, Bruno Henrique, Gabibol e Everton Ribeiro ganhavam espaço para aparecer na área e circular mais pelo campo. Foto: Reprodução / SPORTV

Mas, como diria o poeta, nem tudo são flores. O Flamengo sofreu com as bolas levantadas na área para Rafael Moura e Fernandão e demorou para acertar a marcação na frente da área do goleiro Hugo Souza depois que Augusto César adiantou as linhas do Esmeraldino. A partir daí, foi possível notar que o escrete de Rogério Ceni ainda tem dois grandes problemas. O primeiro é a lentidão na recomposição defensiva. E o segundo é a falta de coordenação coletiva para estabelecer as famosas zonas de pressão no portador da bola. E dentro desse aspecto, não foram poucas as vezes em que a equipe como um todo recuou demais e permitiu que o Esmeraldino tivesse espaço para finalizar de média e longa distância. Mais para o final do jogo, Rogério Ceni adiantou Diego para ser o “camisa 10” de fato da equipe e reforçou o sistema defensivo com João Gomes jogando ao lado de Willian Arão. Vitória justa.

Não foram poucas as vezes em que a defesa do Flamengo recuou demais e permitiu que o Goiás tivesse espaço para finalizar da entrada da área. A recomposição defensiva e a falta de coordenação nas zonas de pressão são problemas que precisam da atenção de todo o elenco e (principalmente) Rogério Ceni. Foto: Reprodução / SPORTV

O mais importante para o Flamengo na partida desta segunda-feira (17) era reencontrar o caminho das vitórias. No entanto, é impossível não notar que toda a equipe ainda joga muito abaixo do que pode jogar. Rogério Ceni teve méritos em abrir mão de parte de seus conceitos e adaptar sua equipe ao contexto que o confronto diante do Goiás pedia. Não é preciso dizer que teremos momentos em que o Mais Querido do Brasil vai precisar impor seu modelo de jogo e que (hoje) a diferença técnica entre o escrete rubro-negro e o bem organizado Palmeiras de Abel Ferreira (próximo adversário do Flamengo) é muito grande. A preparação para o compromisso da próxima quinta-feira (21) terá que ser muito bem feita ou eu e você veremos os pontos fracos do Fla serem bastante explorados. A começar pelas bolas levantadas na área e chegando aos já mencionados problemas na recomposição defensiva.

Difícil não classificar a partida contra o Palmeiras como um divisor de águas para Rogério Ceni. O treinador já teve méritos ao adaptar o Flamengo para o contexto do jogo contra o Goiás. A defesa deu alguns sustos, mas não comprometeu como um todo. Mesmo assim, o escrete de Gabigol, Bruno Henrique e companhia ainda precisa mostrar que pode jogar o futebol que encantou a todos no ano mágico de 2019.

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