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Jogo coletivo, garra e muita força mental: Argentina recupera espírito vencedor diante de uma Seleção Brasileira sem brilho

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a final da Copa América no Maracanã e todos os problemas da equipe comandada por Tite contra a Albiceleste

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

O futebol é tão dinâmico e tão cheio de detalhes que nos esquecemos de um elemento importantíssimo presente nesse magnífico esporte: a força mental. Você pode ter o melhor treinador, o melhor esquema tático, muita organização em campo e liderar todas as estatísticas. Tudo isso será inútil se sua mente não estiver focada e se você não entender a grandeza do que está em jogo. No caso da Seleção Brasileira de Neymar, Thiago Silva, Casemiro e Tite, o título da Copa América. Não que o lado que vestia amarelo não desejasse conquistar o seu décimo título continental. Mas é preciso reconhecer que a Argentina de Messi, Di María, Paredes, De Paul (o melhor em campo na opinião deste que escreve) e Emiliano Martínez sobraram nesse aspecto. Para nós, era mais do mesmo. Para a Albiceleste, era a vida, a correção de uma injustiça e a coroação de um dos melhores jogadores de todos os tempos.

A decisão da Copa América também era o maior teste da Seleção Brasileira no ano e uma das apostas mais altas de Tite no comando da equipe diante de todo o contexto conturbado que antecederam a realização do torneio. Enquanto a Argentina se concentrava nos pontos fracos do escrete canarinho e abraçava a estratégia de Lionel Scaloni como quem abraça um filho, víamos imprensa, jogadores e até mesmo autoridades (não disse qual) falar em “comemoração do título”, em “show de Neymar” e em “festa no Maracanã”. E no meio disso tudo, ainda havia Lionel Messi. Para aquele que é um dos maiores jogadores de todos os tempos, essa Copa América tão polêmica, tão esvaziada e tão conturbada era a oportunidade de uma vida inteira. Depois de conquistar todos os títulos possíveis vestindo a camisa do Barcelona, faltava uma conquista pelo seu país. Esse era o cenário que antecedia o jogo no Maracanã.

Tite manteve o time que iniciou a partida contra o Peru na última terça-feira (6) confiando no entrosamento entre Neymar e Lucas Paquetá e na força do seu sistema defensivo. No entanto, a final contra a Argentina era um teste e tanto para uma equipe que oscilou demais nessa Copa América embora seja muito superior aos adversários que enfrentou pelo menos até este sábado (10). O técnico Lionel Scaloni apostou num 4-3-3/4-4-2 que soltava Messi e Lautaro Martínez para o ataque e tinha em Di María, Paredes, De Paul e Lo Celso jogadores extremamente dedicados na defesa e muito participativos na criação das jogadas de ataque. A partida também teve lances mais ríspidos e a arbitragem omissa do uruguaio Esteban Ostojich, que permitiu a caça a Neymar durante todos os noventa e poucos minutos de partida. Mesmo assim, a Argentina se mostrava muito mais organizada e concentrada do que a Seleção Brasileira.

Brasil vs Argentina - Football tactics and formations

Lionel Scaloni apostou num 4-3-3 que variava para um 4-4-2 conforme a movimentação de Di María e que acelerava nos contra-ataques buscando os espaços no meio-campo da Seleção Brasileira. Tite não conseguiu corrigir esses problemas na sua equipe e via De Paul tomar conta do meio-campo.

Aos 21 minutos do primeiro tempo, Di María recebeu lançamento pela direita, contou com o vacilo de Renan Lodi e encobriu Ederson para abrir o placar no Maracanã. E num cenário de muita briga no meio-campo e de jogo mais truncado, ter saído na frente foi fundamental para a Argentina e trágico para a Seleção Brasileira. Por outro lado, é preciso entender bem como a equipe de Lionel Scaloni aproveitou as deficiências do escrete comandado por Tite para conquistar a vitória e o título. O início do lance do único gol da partida mostra De Paul recebendo a bola na intermediária e Lucas Paquetá e Neymar apenas observando o camisa 7 ajeitar o corpo, observar Di María se lançando às costas de Renan Lodi e fazer o lançamento. A pressão na saída de bola dos adversários tão presente nessa Copa América não foi vista contra a Argentina. E isso sem falar nos enormes buracos entre as linhas da nossa seleção.

De Paul recebe a bola na intermediária com várias opções para trabalhar as jogadas e não recebe o combate de nenhum jogador da Seleção Brasileira. Neymar e Lucas Paquetá apenas observam o camisa 7 fazer o lançamento para Di María no lance do gol a Argentina. Foto: Reprodução / YouTube / Copa América

A Seleção Brasileira jogava de maneira confusa e embolava demais o jogo no meio-campo. Fato esse que só facilitava a Argentina de um Messi onipresente e muito mais raçudo do que o costume. Pouquíssimas vezes vimos o camisa 10 dando carrinho e recompondo a marcação com tanto afinco como nesse sábado (10). Tite tentou dar mais agressividade à sua equipe com a entrada de Firmino no lugar de Fred e viu Richarlison ter gol (bem) anulado por impedimento e parar na defesa providencial de Emiliano Martínez. Vinícius Júnior, Emerson e Gabigol ainda entraram nos minutos finais, mas Tite muito mais bagunçou ainda mais o escrete canarinho. A Argentina, por sua vez, se fechou na defesa, bloqueou o espaço de ação de Neymar (que não se omitiu em nenhum momento e fez grande partida) e explorou os espaços que existiam entre a linha de cinco atacantes (!!!) e o desprotegido meio-campo da Seleção Brasileira.

Neymar recebe a bola no meio-campo e logo recebe a marcação de pelo menos dois jogadores argentinos. Tite empilhou atacantes e acabou bagunçando ainda mais a Seleção Brasileira contra uma Argentina forte, concentrada e extremamente aplicada taticamente. Foto: Reprodução / YouTube / Copa América

Difícil não concluir que Tite foi muito mal nas suas decisões. A partida pedia a criatividade de Everton Ribeiro desde o primeiro minuto saindo pelo do lado e fazendo dupla com Neymar. Gabigol poderia ter entrado mais cedo e Emerson poderia ser boa opção para perseguir Di María no lado esquerdo. Mas o grande problema estava era de ordem mental. Bastou que a Argentina abrisse o placar no primeiro tempo para que toda a equipe se desmanchasse mentalmente e cometesse erros bobos. Nem é preciso dizer que esse é o grande diferencial de bons times para times vencedores. E um dos pontos nos quais a Seleção Brasileira mais peca nos últimos anos e mais será exigida na próxima Copa do Mundo. A Argentina deu o exemplo nesse sábado (10) no Maracanã. Muita garra, muita organização, muita aplicação tática e (principalmente) muita concentração para frear a equipe comandada por Tite. Não é pouca coisa.

E por mais que o lado torcedor desse colunista fique chateado e de “cabeça inchada” com a derrota da Seleção Brasileira, todo o contexto da realização da Copa América, todo o cenário que se desenhava nos últimos dias apontava para Messi e para uma Argentina que soube ressurigir das cinzas. Não deixa de ser um ajuste com um dos melhores jogadores da história. Afinal, ninguém merecia mais esse título do que o camisa 10 da Albiceleste. O futebol agradece. E muito.

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