Botafogo já teria falido se fosse uma empresa, afirma CEO Jorge Braga

Botafogo possui uma das maiores dívidas do futebol mundial ao estar mergulhado em uma dívida que supera um bilhão; O CEO divulgou uma carta e foi sincero

Fabrício Carvalho
Jornalista formado / Rio de Janeiro. Redator de notícias, artigos e relatos sobre futebol nacional e internacional, basquete e esportes americanos.

Crédito: Vitor Silva/Botafogo

Depois de mais de um mês desde o anúncio, o CEO Jorge Braga divulgou nesta segunda-feira (26) uma carta aberta direcionada para a imprensa e para a torcida do Botafogo.

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O executivo buscou ser o mais sincero nas suas palavras e categorizou que “se fosse uma empresa, o Botafogo já teria falido há tempos” ao falar sobre a situação financeira do clube.

Em relação à situação atual (com uma dívida que ultrapassa um bilhão de reais), o CEO listou quatro etapas fundamentais para a recuperação do clube: interromper a hemorragia do caixa, reestrutura modelo de negócio, captar novos recursos em quantidade suficiente e reestruturar a dívida bilionária.

Ao falar sobre o Estádio Nilton Santos, o CEO confessou que os custos de manutenção são considerados altos e o prejuízo diário é de R$20 mil. Mesmo ressaltando a importância do estádio para os jogadores e torcida, deixou em aberto a situação futura.

Sobre a temporada 2021 dentro de campo, Jorge Braga confirmou que o único objetivo é retornar para a primeira divisão do futebol brasileiro mesmo que seja em 4º lugar. Para isso, um trabalho de reestruturação será iniciado em breve.

O CEO também comentou sobre as medidas que já foram tomadas nos primeiros dias. Dentre eles, houve alteração no Código de Ética para os funcionários para melhorar gestão de informações confidenciais e identificar conflitos de interesse.

Além disso, foi criada a exigência de concorrência (RFP) para atração e seleção de parceiras comerciais, novos controles de gestão de ativos imobilizados, força-tarefa para cumprir prazo de demonstrações financeiras e troca da parte administrativa para uma sala de reunião no Nilton Santos para melhorar comunicação interna.

Confira abaixo o comunicado divulgado oficialmente pelo Botafogo

“Após mergulhar em todas as áreas e conversar com integrantes do universo do Botafogo, incluindo conselheiros, beneméritos, diretores, sócios e torcedores, e após 30 dias de total imersão, me sinto em condições de me manifestar.

A situação do clube é desafiadora em todos os sentidos. Do caixa ao futebol, temos tudo para fazer. Não basta saber o quê mas também o como. Se fosse uma empresa, o BFR já teria falido há tempos. Devem existir poucos clubes no mundo com uma relação dívida/receita igual à nossa que ainda estejam vivos.

Porém, a parte mais importante desta transformação é a visão e a convicção da mudança radical de práticas amadoras, que já aconteceu com a nova gestão liderada pelo Presidente Durcesio Mello. Mudar uma cultura centenária requer primeiro coragem e convicção, e isto, com a sua liderança, este time tem de sobra.

Segundo a minha visão de CEO, o projeto possível para o Botafogo tem quatro etapas que precisam ser executadas com urgência e precisão: parar a hemorragia do caixa; reestruturar o modelo de negócio (custos vs. receitas) que é historicamente deficitário; captar novos recursos em quantidade e forma suficientes para podermos, por último, enfrentar e reestruturar a dívida bilionária.

Mas para tanto é necessário primeiro estabelecer uma fundação de governança, transparência e credibilidade. Tudo fácil de falar e difícil de fazer!

Na Gestão do Caixa, reestruturamos e centralizamos todos os processos críticos de fornecedores, compras, e pagamentos e criamos um “Comitê de Caixa” liderado pelo Vinícius Assumpção, nosso VP Geral e Financeiro, que se reúne diariamente para entender e decidir o que se pode e/ou o que se consegue pagar. E como negociar com os credores.

Para mudar o historicamente deficitário modelo de negócios, revisitamos todos os principais custos, desafiando-os individualmente, passando por uma criteriosa análise de contratos, fornecedores, prestadores de serviço e colaboradores, sob a ótica da nova realidade de receitas que é estar na Série B. E fica muito claro que teremos que fazer duros e necessários cortes que passarão necessariamente por enxugar quadros, serviços, estruturas e repensar esportes e negócios que sejam deficitários. Mas sempre com responsabilidade e zelo por nossos sócios, funcionários e atletas.

Ainda falando em realidade, toda vez que acesso o Nilton Santos me impressiono com a grandeza das dimensões, da beleza do estádio, da importância que ele tem para nossa torcida e do prejuízo diário que chega a R$ 20 mil reais, que precisamos resolver em meio a esta pandemia, sem jogos e bilheteria.

Na dimensão das receitas de médio/curto prazo, nada se compara àquelas que receberemos ao voltar à Série A do Campeonato Brasileiro. Serão mais de R$ 100 milhões quando se somam as receitas de transmissão (abertas e pay-per-view) com a valorização das propriedades de marca e patrocínios.

Entendo e respeito profundamente o desejo da torcida por títulos mas, frente à nossa dura realidade, nosso único objetivo realista é perseguir o 4º Lugar no Campeonato que começa agora no fim de maio, e voltarmos para a Série A, de onde nunca deveríamos ter saído. Qualquer coisa diferente disso é pedir para fracassar.

E, também por isso, teremos que acelerar a transformação do time que já começou. Precisamos selecionar, atrair e contratar alguns reforços com a máxima assertividade. E para tanto faremos um sacrifício financeiro desproporcional à realidade do clube, mas fundamental para termos chance de subir.

Vale ressaltar que, apoiados por uma consultoria externa, começaremos um trabalho de reestruturação da parte de análise de mercado dos atletas, reunindo competências numa nova área que se reportará a mim e à Presidência, prestando melhores serviços ao Eduardo Freeland, nosso Diretor de Futebol, liberando seu tempo para focar em performance, e garantindo melhores negociações e valorização (valuation) do nosso maior ativo que são os direitos econômicos federativos.

Quanto à reestruturação da dívida, é evidente que não existe uma solução simples. Se alguém disser o contrário está muito equivocado. Tenho muita esperança no novo marco regulatório que está sendo discutido no Congresso, assim como a natural evolução das alternativas legais disponíveis (p.ex: recuperação judicial) que estão em curso, dado que o cenário é parecido para todos os times do Brasil, mas nada disto ainda é um fato.

Por último, quero falar do projeto da S/A ou qualquer outro modelo que permita captar recursos para enfrentarmos esta dívida bilionária. Para funcionar, ele precisa ter quatro pilares fundamentais que não podem ser descuidados: Credibilidade de quem o conduz; Segurança jurídica e financeira para ambos investidores e Clube; Destinação específica e clara de recursos para o futebol (profissional e base) e retorno atraente para investidores profissionais e individuais. Não atender de forma eficaz a qualquer destes requisitos é por em risco a única chance do BFR de sair deste ciclo vicioso em que se encontra.

O Botafogo tem pressa, mas não pode errar mais. Ou o balanço de consequências será inevitável. 

Encerro pedindo à gloriosa torcida que não nos abandone agora. Precisamos de sua paixão e de seu apoio, incondicionais. Não tenho ilusões de que alguém conseguirá mudar essa realidade sozinho, mas vocês podem contar comigo neste enorme desafio.”

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