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Convocação da Seleção Feminina traz novos nomes, mas não indica mudanças no jeito de jogar (e isso é preocupante)

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Pia Sundhage para as duas partidas contra a Argentina e o novo ciclo da equipe brasileira

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Amanda Paiva / CBF

Era mais do que natural que Pia Sundhage iniciasse um processo de renovação da Seleção Feminina depois dos Jogos Olímpicos de Tóquio e da dura eliminação para o Canadá. Renovação essa que já era pedida por este que escreve e por uma série de pessoas desde os tempos em que Vadão ainda era o treinador da equipe. No entanto, por mais que as críticas relacionadas às escolhas táticas da treinadora sueca existam e por mais que o escrete canarinho não tenha atingido todo o seu potencial nos últimos meses, é preciso dizer que a lista para os amistosos contra a Argentina (marcados para os dias 18 e 21 de setembro nas cidades de João Pessoa e Campina Grande respectivamente) traz sim nomes interessantes e que podem somar demais na Seleção Feminina. A grande questão, no entanto, é saber se Pia Sundhage vai testar novas formações e outras maneiras de se jogar. Essa é a grande preocupação deste colunista.

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Mesmo assim, a lista de convocadas tem muita qualidade. Temos a ótima zagueira Lauren (do São Paulo), as polivalentes Thaís e Katrine (ambas jogadoras do Palmeiras), a veloz Bruninha (lateral do Santos) e a promissora Lorena (goleira do Grêmio). Juntam-se a elas jogadoras como Yasmim (grande lateral-esquerda do Corinthians), a versátil Antônia (do Madrid CFF), Ivana Fuso (volante do Manchester United) e dois nomes que foram muito bem na disputa dos Jogos Olímpicos: Angelina (do OL Reign, dos Estados Unidos) e Duda (meia do São Paulo). Além, é claro, de jogadoras que fizeram parte do último ciclo, como Marta, Érika, Andressinha, Debinha, Ludmila e Aline Reis. Por mais que Pia Sundhage tenha errado a mão em determinadas escolhas para os JOgos Olímpicos, é preciso reconhecer que a Seleção Feminina deu um belo salto no âmbito tático e se tornou muito mais competitiva do que há alguns anos. A evolução é nítida.

Mas nem tudo são flores. A característica das atletas chamadas pela treinadora sueca indicam uma manutenção do estilo de jogo visto nas Olimpíadas de Tóquio. E esse é o ponto que mais preocupa nesse início de ciclo. Por mais que os nomes convocados tenham sim bastante talento e saibam cumprir mais de uma função dentro de campo, a tendência mais forte (pelo menos a curto prazo) é vermos a Seleção Feminina jogando no velho 4-4-2/4-2-4 utilizado pela treinadora sueca nos Jogos Olímpicos. Antônia seria a “lateral-zagueira” pela direita com Tamires pelo outro lado. Andressinha e Angelina seriam as volantes e Marta permaneceria junto de Duda na criação das jogadas no meio-campo. Linhas mais baixas para gerar espaço às costas da equipe adversária e explorar a velocidade de Debinha e Ludmila no comando de ataque. Formação que mostrou competitividade, mas que não conseguiu ser agressiva quando foi necessário.

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Brasil - Football tactics and formations

Antônia seria a “lateral-zagueira” da Seleção Feminina caso Pia Sundhage queira repetir o 4-4-2/4-2-4 utilizado nos Jogos Olímpicos. A equipe tenha mostrou competitividade contra adversários mais fortes, mas não conseguiu ser agressiva quando foi realmente necessário.

Muito já foi dito sobre esse 4-4-2/4-2-4 de Pia Sundhage aqui mesmo neste espaço. Essa formação exige que as volantes cubram um espaço muito grande no campo, isola a dupla de ataque e afasta Marta da área adversária. É por isso que, mais do que testar nomes, a treinadora sueca tem aí a grande chance de testar novas formações. A amiga Catharina Deister indicou uma bastante interessante no seu texto “A nova versão da Seleção Feminina” no site “Ícaro das Análises”. Tamires pode ser usada no meio-campo com Yasmim assumindo a lateral-esquerda (exatamente como ocorre no Corinthians). Ao invés de jogar mais pelo lado do campo, Marta seria uma espécie de “falso nove” (numa função semelhante à de Christine Sinclair no Canadá campeão olímpico em Tóquio). E para compensar a falta de uma jogadora aberta pela direita, Bruninha entraria no setor formando a última linha. Na prática, um 4-3-3 que varia para um 4-3-1-2.

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Com Bruninha e Yasmim nas laterais, Tamires no meio-campo e Marta mais próxima da área adversária, Pia Sundhage poderia pensar num 4-3-3/4-3-1-2 de bastante movimentação e que aproveitaria bem as características de cada jogadora convocada para os amistosos contra a Argentina.

Como bem observa Catharina Deister, a formação acima permite o apoio constante das laterais e que as jogadoras mais novas compensem a falta de intensidade das mais veteranas sem que a Seleção Feminina perca equilíbrio. E a grande verdade é que as jogadoras convocadas dão sim um leque de opções imenso para Pia Sundhage pensar a Seleção Feminina. Inclusive, há como se pensar num esquema com três zagueiras. Ainda que a grande maioria das atletas não esteja acostumada a jogar nessa formação, ela pode ser bastante útil para se poupar as mais veteranas e aproveitar bem a polivalência de Katrine (ou Thaís), Ivana Fuso, Antônia e várias outras que fazem parte da lista. Tamires seria a “enganche” da equipe (partindo da esquerda para o meio), Geyse e Ludmila colocariam bastante força física e velocidade no ataque e Katrine organizaria a saída de bola desde o campo defensivo. Por que não tentar?

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Com Antônia e Katrine se juntando a Érika no trio de zagueiras e Ivana Fuso se somando a Tamires e Angelina no meio-campo, teríamos um 3-4-1-2 interessante na Seleção Feminina. A característica das jogadoras convocadas por Pia Sundhage permite que se façam testes nessa formação.

Seja como for, podemos dizer que (finalmente) o processo de renovação da Seleção Feminina teve seu início. A grande preocupação, no entanto, tem relação direta com a maneira que a equipe joga e com a falta de repertório de Pia Sundhage. Há como se jogar mais e aproveitar todo o potencial das atletas convocadas sem amarrá-las numa formação que funciona defensivamente, mas que deixa a desejar no aspecto ofensivo. Além disso, há como se questionar a presença de alguns nomes e a ausência de outros. Este colunista está tentando entender até agora o que a treinadora sueca tem contra Bruna Calderan (lateral do Palmeiras). Ou o que teria deixado Vic Albuquerque e (principalmente) Gabi Portilho de fora dessa primeira lista. Há como se compreender a confiança de Pia Sundhage nesta ou naquela atleta DESDE QUE as escolhidas consigam cumprir aquilo que ela determina que seja feito em campo. E tem coisas que não possuem explicação.

Certo é que a Seleção Feminina continuará forte e competitiva. O trabalho já foi assimilado por quem estava na Seleção Feminina no primeiro ciclo e a tendência é que novas jogadoras substituam Andressa Alves, Formiga, Bruna Benites e várias outras da antiga geração. Mesmo assim, a necessidade de se testar novas formações e explorar mais o potencial e o talento de cada atleta convocada é fundamental para que o Brasil finalmente saia do “quase” em competições importantes. Repetimos: esse time pode jogar muito mais do que jogou em Tóquio.

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