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Espaço entrelinhas foi o grande pecado da Ferroviária diante de um Corinthians frio e calculista

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Arthur Elias e Lindsay Camila no jogo de ida das semifinais do Brasileirão Feminino

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rebeca Reis / Staff Images Woman / CBF

Antes de mais nada, é bom que se diga que Lindsay Camila não utilizou a estratégia errada contra o Corinthians. A Ferroviária abria duas jogadoras velozes pelos lados do campo e buscava acionar Aline Milene e Sochor com bolas longas às costas da zaga do Timão. O problema, no entanto, estava na execução. Por mais que as Guerreiras Grenás tenham criado boas chances, a equipe pecou demais no espaço entrelinhas, perdeu a concentração quando levou o GOLAÇO de Gabi Zanotti (a melhor em campo na humilde opinião deste que escreve) e se transformou em presa fácil para o escrete comandado por Arthur Elias. Não foram poucas as vezes em que Adriana, Vic Albuquerque, Tamires e Gabi Portilho (o que essa menina tem jogado é uma barbaridade) encontraram espaços generosos para circular na intermediária da Ferroviária. Difícil não enxergar nesse problema o grande pecado da equipe de Lindsay Camila na partida deste domingo (29).

O primeiro gol da partida (marcado logo aos três minutos do primeiro tempo por Vic Albuquerque) é um ótimo exemplo de como o espaço entrelinhas das Guerreiras Grenás foi muito bem explorado pelo Corinthians. Katiuscia recebe a bola ainda no campo defensivo e vê Gabi Portilho se deslocando para dar opção de passe no lado direito sem que Aline Milene, Sochor, Géssica ou Carol Tavares pressionassem ou (pelo menos) fechassem a linha de passe. A jogada prossegue e a bola para nós pés de Andressinha que tem todo o espaço do mundo para fazer o passe em profundidade (sempre aproveitando as subidas das laterais Ana Alice e Barrinha ao ataque). Gabi Portilho recebe na direita, avança e espera que o quarteto ofensivo se posicione. Adriana arrasta a zaga da Ferroviária para trás, Tamires abre o campo pelo lado esquerdo e Vic Albuquerque ataca o espaço aberto por toda essa movimentação das atacantes do escrete comandado por Arthur Elias.

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Katiuscia recebe a bola ainda no campo defensivo e não sofre pressão das jogadoras da Ferroviária. O Corinthians usa bem o espaço que seu adversário concedeu e inicia a construção de toda a jogada do primeiro gol da equipe de Arthur Elias na partida deste domingo (29). Foto: Reprodução / BAND

A Ferroviária ainda empatou a partida cinco minutos depois com Yasmin Cosmann aproveitando falha da boa goleira Kemelli em cobrança de escanteio. Mas os problemas na compactação da equipe de Lindsay Camila acabaram gerando uma espécie de “efeito cascata”. Com tanto espaço para cobrir na entrelinha, as Guerreiras Grenás também sofriam demais na recomposição defensiva e seguiam sofrendo demais com as escapadas de Tamires e Gabi Portilho pelos lados do campo. O golaço de bicicleta de Gabi Zanotti (marcado aos 17 minutos) também consolidou o panorama da partida daquele momento em diante. O Corinthians de Arhtur Elias esperava mais a Ferroviária com um 4-4-2 mais organizado e alternando a marcação mais alta com um bloco mais baixo. E a Ferroviária de Lindsay Camila tentava chegar no ataque com bolas mais longas e muita velocidade num 4-2-4 mais desarrumado e sem compactação defensiva.

O Corinthians alternava a pressão no campo adversário com um bloco mais baixo e bastante organizado. A Ferroviária, por sua vez, tentava acelerar pelos lados do campo e com bolas mais longas buscando Aline Milene e Sochor um pouco mais por dentro no comando de ataque. Foto: Reprodução / BAND

Todo esse espaço entrelinhas na Ferroviária acabou consagrando Gabi Zanotti mais uma vez. Este que escreve já falou mais de uma vez sobre a categoria da camisa 10 do Corinthians e de como ela poderia ter sido útil na Seleção Feminina mesmo com idade mais avançada. É bem compreensível que o contexto da partida fosse muito favorável ao seu estilo de jogo, mas ela foi a principal responsável pelos famosos passes “quebra-linhas” no meio-campo do Timão. E isso num momento em que Andressinha se mostrava meio perdida, apática e errando lances até de certa facilidade para uma jogadora com seu talento. E mesmo com toda a pressão da Ferroviária (ainda que meio desorganizada), Gabi Zanotti manteve a calma na saída de bola e desafogou o time de Arthur Elias. O gol marcado por Érika aos 26 minutos do segundo tempo, no entanto, praticamente acabou com o ímpeto das Guerreiras Grenás na partida deste domingo (29).

Gabi Zanotti se transformou na grande jogadora da partida ao chamar a responsabilidade da criação das jogadas e da saída de bola para si. A camisa 10 desafogava o Corinthians com passes que exploravam bem a falta de compactação entrelinhas da Ferroviária. Foto: Reprodução / BAND

O mais interessante da partida na Fonte Luminosa foi o fato da Ferroviária ter conseguido “machucar” o Corinthians, isto é, ter conseguido criar jogadas de ataque e obrigado a goleira Kemelli a trabalhar com boas defesas (apesar da falha no gol de Yasmin Cosmann). O grande problema, além da falta de compactação entre as linhas e da recomposição defensiva ruim das Guerreiras Grenás estava na execução das jogadas. Aline Milene perdeu chance incrível na frente da goleira corintiana, a extremamente promissora Aline Gomes acertou o travessão no início da segunda etapa e Carol Tavares desperdiçou duas ótimas oportunidades dentro da área. Além de ter falhado nos pontos já mencionados acima, o escrete comandado por Lindsay Camila também errou demais nas finalizações a gol. E isso é suicídio futebolístico. Ainda mais quando você enfrenta uma equipe tão bem treinada e com tanta qualidade individual.

Mesmo com a vantagem na briga por uma vaga na final, este que escreve não acredita numa mudança de postura do time de Arthur Elias para o jogo de volta contra as Guerreiras Grenás. Pode ser sim que o treinador aposte em outra formação e rode mais as jogadoras dando chances a Ingryd, Yasmim e Jheniffer. Seja como for, Lindsay Camila já sabe que encarar o Corinthians com tantos problemas coletivos e táticos é muito complicado. A tarefa da Ferroviária acabou ficando muito mais complicada do que antes.

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