Allan Simon: Cruzeiro caiu no pior momento possível da história dos contratos de TV

Outros grandes, como o próprio rival Atlético, tiveram mais garantias financeiras do que o Cruzeiro terá em 2020

Allan Simon
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalha com esportes desde 2011 e já passou por veículos como R7 (Rede Record), Abril.com, UOL Esporte e Torcedores nas funções de redator, repórter, editor e apresentador de vídeos. Experiências de coberturas em duas Copas, duas Olimpíadas, dois Pans. Atualmente, produz o Blog do Allan Simon, é colunista de Mídia Esportiva do Torcedores e colaborador do UOL.

Foto: Cruzeiro vai disputar Série B sem verba de elite, como acontecia com grandes nos outros anos - Ilustração: Allan Simon

Como se não bastasse toda a situação de caos financeiro que o Cruzeiro vive após uma péssima administração, tema no qual não me aprofundarei neste texto, o rebaixamento do time mineiro veio justamente no pior momento possível para um grande cair de divisão no Brasileirão: o novo contrato de TV que começou a vigorar em 2019 e vai até 2024 deixou os times que vão para a segundona com as calças na mão.

A regra agora é clara: se cair, vai receber R$ 6 milhões da cota de TV da Série B no ano seguinte, ou poderá optar pela parcela de PPV. Para times médios e pequenos, vale mais agarrar a cota normal, pois o pay-per-view não rende tudo isso a eles. No caso do Cruzeiro, a cota do Premiere baseada em pesquisa nacional do Ibope ficaria entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões, então valeria a pena ficar com ela.

Mas a queda é imensa. Só de valores fixos em TV aberta e TV por assinatura com a Globo, o time mineiro deixará de receber R$ 22 milhões, sem contar o que era ganho com jogos exibidos na TV Globo e no SporTV durante a competição. Pela projeção que fiz em meu blog no mês de dezembro, o Cruzeiro ganhou R$ 56,8 milhões. Em 2020, receberá menos de 40% disso, a menos que sua torcida faça uma mobilização histórica na compra de pacotes do Premiere e aumente o percentual do clube na divisão do bolo de R$ 650 milhões.

Você pode se perguntar: mas não é isso, uma queda de receitas, que acontece a todos os que sempre caíram? Na verdade, a resposta é “não”. Durante a existência do Clube dos 13, até 2011, os times que integravam a entidade recebiam 50% do valor de suas cotas enquanto jogassem a Série B. Foi o que aconteceu com Palmeiras e Botafogo, em 2003, que além de ganhar metade do dinheiro da elite, ainda puderam arrecadar dos contratos firmados com SporTV e Record naquela competição.

Em 2005, o Grêmio também ficou com metade da sua cota de elite, assim como o Atlético-MG em 2006, e o Corinthians em 2008. O Timão, inclusive, conseguiu na época bons contratos de publicidade com a Série B e praticamente reduziu o dano da perda de metade da sua grana na Série A.

A situação ficou melhor nesse sentido após o fim do Clube dos 13. Os contratos individuais com a Globo previam que as cotas se manteriam intactas no primeiro ano de Série B, caindo apenas em caso de permanência na segunda divisão para 75% no segundo ano, 50% no terceiro e 25% no quarto. Assim, o Palmeiras arrecadou incríveis R$ 80 milhões em 2013. Isso já representava mais que a soma do dinheiro recebido por todos os outros 19 concorrentes naquela edição, segundo mostrou o UOL Esporte na época.

Esse mesmo esquema foi repetido para os rebaixamentos do Vasco, que disputou a Série B com cota de Série A em 2014 e 2016, para o Botafogo, em 2015, e o Internacional, em 2017. O Cruzeiro, cuja torcida se orgulhava até então de nunca ter sido rebaixado, acabou caindo justamente quando o contrato mudou.

A mudança, inclusive, é uma boa notícia para o futebol. Era uma injustiça um clube ganhar o mesmo valor de Série A jogando a segunda divisão. Por mais importante e enorme que seja uma instituição, essa prática surgiu como uma espécie de desvio de verba desde os tempos de 50% de verba com o Clube dos 13. O dinheiro do contrato da elite sustentava times que poderiam permanecer por anos jogando a Série B, enquanto times da primeira divisão chegavam a receber menos do que os não estavam mais nela.

O dinheiro do PPV é o único possível de ser mantido porque diz respeito ao torcedor que compra os jogos do seu time. É justo, portanto, que o Cruzeiro ou qualquer outro rebaixado receba nessa modalidade uma cota igual ao que ganharia na Série A, pois seu fanático adepto compraria de qualquer maneira as partidas para acompanhar a equipe.

Mas, hoje, os bolos de TV aberta e TV por assinatura são muito bem divididos. No caso dos times que fecharam com a Globo, 40% é distribuído de maneira igualitária, enquanto 30% sai de acordo com o número de jogos exibidos de cada clube, e outros 30% viram premiação. Para as equipes da Turner, o esquema é parecido, mas com percentuais de 50%, 25% e 25%. Não há, portanto, maneira de tirar dinheiro desse bolo de R$ 1,1 bilhão para sustentar quem está em outra divisão.

A receita é melhorar a Série B. Após o fim das eternas viradas de mesa, principalmente quando Palmeiras e Botafogo deram o exemplo e subiram no campo em 2003, a segunda divisão se tornou um produto melhor, com mais credibilidade, atraiu contratos de TV, ganhou 100% de cobertura do PPV, mas ainda tem muito a evoluir.

Quem sabe agora, com a chance real de times grandes verem suas finanças prejudicadas por rebaixamentos, não surja alguma grande ideia para transformar a Série B em um produto mais rentável? Todos ganhariam com isso.

Allan Simon é jornalista esportivo desde 2011, tendo passado por redações como o R7, Abril.com, UOL Esporte e Torcedores. Participou das coberturas de duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas, dois Pans, e diversos outros momentos históricos do esporte brasileiro nesta década. Criador do Prêmio Torcedores de Mídia Esportiva. Atualmente comanda o Blog do Allan Simon, é colaborador do UOL e colunista do Torcedores, tendo também um canal no YouTube com análises, histórias e estatísticas de mídia esportiva e futebol em geral.

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