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Allan Simon: Relembre 5 fatos sobre a Copa do Mundo de 2002 na TV

Globo vai exibir o VT na íntegra da final da Copa do Mundo de 2002 no domingo de Páscoa

Allan Simon
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalha com esportes desde 2011 e já passou por veículos como R7 (Rede Record), Abril.com, UOL Esporte e Torcedores nas funções de redator, repórter, editor e apresentador de vídeos. Experiências de coberturas em duas Copas, duas Olimpíadas, dois Pans. Atualmente, produz o Blog do Allan Simon, é colunista de Mídia Esportiva do Torcedores e colaborador do UOL.

Foto: Defesa de Marcos na final da Copa do Mundo de 2002

A Globo vai proporcionar ao fã de futebol que não viveu a Copa do Mundo de 2002 a chance de ver na íntegra, em TV aberta, o jogo que deu o último título mundial – até hoje – ao Brasil no Japão. A vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha em Yokohama (no mesmo estádio onde São Paulo, Internacional e Corinthians também ganhariam o mundo anos depois), que será exibida no próximo domingo (12) às 16h, valeu o penta e encerrou um Mundial histórico na televisão.

Foi a primeira Copa do Mundo disputada na Ásia. Logo, o fanático por futebol teve que viver uma realidade que até então era mais comum aos amantes das Olimpíadas (Seul-1988 e Sydney-2000): varar madrugadas ao longo de vários dias para ver um evento esportivo histórico. Algo que apenas os torcedores de quem jogava o Mundial Interclubes, a Copa Toyota, passava nos primórdios da competição neste formato, nos anos 1980 e 1990, mas que também já havia mudado (Grêmio, Cruzeiro, Vasco e Palmeiras atuaram de noite no Japão, manhã aqui no Brasil).

Foi também a primeira sediada por dois países, Coreia do Sul e Japão. Esse cenário todo, mais a “conjuntura” da época criou alguns fatos interessantes e históricos para quem viveu. E que relembramos a partir de agora nesta coluna:

1 – Horários dos jogos

Se tem uma coisa que eu não queria, era ser adulto na Copa do Mundo de 2002 e ter compromissos de trabalho. Dei sorte por ter apenas 11 anos e a obrigação única de estar na escola no período da tarde. Assim, eu pude dar uma virada completa no relógio biológico e “adaptar” ao fuso asiático. Além de quem podia só estudar na época, aqueles que ficaram de férias ou tinham mais tempo livre tiveram certamente madrugadas inesquecíveis. Para quem estava no Brasil, os horários padrões das rodadas da primeira fase eram: 3h30, 6h e 8h30.

Mas houve um domingo marcante. Como quase sempre, a primeira fase tem um dia com quatro jogos para compensar a data de abertura, que normalmente (mas não toda vez) tem apenas uma partida. No dia 2 de junho de 2002, um domingo (para quem varou a madruga, ainda era um sábado), a jornada foi a seguinte:

2h30 – Argentina 1 x 0 Nigéria
4h30 – Paraguai 2 x 2 África do Sul
6h30 – Inglaterra 1 x 1 Suécia
8h30 – Espanha 3 x 1 Eslovênia

Foram oito horas seguidas de futebol do começo da madrugada à manhã daquele domingo. E jogos legais, com os argentinos se iludindo com a vitória na estreia (perderiam para a Inglaterra e seriam eliminados ainda na primeira fase empatando com Suécia), paraguaios e sul-africanos fazendo um duelo de muitos gols, ingleses e suecos medindo forças (e a nossa capacidade de manter os olhos abertos no terceiro jogo da jornada), e espanhóis sonhando como nunca para depois perderem como sempre (até 2010) em Copas.

Com relação aos jogos do Brasil, a estreia aconteceu às 6h de uma segunda-feira, o dia 3 de junho. Ou seja, um horário que não serviu de muita coisa para quem está acostumado a parar tudo (trabalho e estudo) para ver a seleção jogar em Copas do Mundo. Deu para ter uma vida normal depois da vitória por 2 a 1 (com ajuda da arbitragem) contra a Turquia.

A goleada contra a China no segundo jogo, por 4 a 0, veio em uma manhã de sábado, dia 8 de junho, às 8h30. Já classificado, o time de Felipão despachou também a Costa Rica, agora por 5 a 2. Este jogo testou a nossa paixão por futebol: Brasil garantido na próxima fase, sem grandes pretensões naquela partida, e em pleno horário das 3h30 da manhã. Mas era tudo uma preparação para o que viria depois. A Globo registrou a menor audiência em jogos da seleção naquele duelo. Ainda assim, foram históricos 56 pontos no Ibope.

Nas oitavas de final, o jogo contra a Bélgica também teve lance polêmico com arbitragem em gol anulado dos belgas. Mas o Brasil venceu por 2 a 0. E foi um horário bom de assistir: 8h30. Já nas quartas… quem não ligou para o valor do jogo contra a Costa Rica ganhou experiência para ver a decisão da vaga na semifinal contra a Inglaterra. De novo, o horário das 3h30. A virada brasileira com direito a golaço de Ronaldinho Gaúcho marcou 65 pontos no Ibope.

A maior audiência da Copa do Mundo veio na semifinal, contra a Turquia, às 8h30 do dia 26 de junho. A vitória simples por 1 a 0 teve 69 pontos para a Globo, foi em uma quarta-feira, e tinha todo o cenário para ter o recorde do Mundial mesmo. A final, contra a Alemanha, foi às 8h e deu dois pontos a menos, 67. Isso porque é natural que aos domingos e em decisão de Copa as pessoas se reúnam mais para ver o jogo, em vez de assistir cada um em sua casa.

2 – Transmissão exclusiva do Grupo Globo

Quando eu cito apenas os dados de audiência da Globo, é porque somente ela transmitiu os jogos na TV aberta. O SporTV, do mesmo grupo, foi exclusivo na TV paga também. Até 1998, os direitos de transmissão da Copa do Mundo eram revendidos no Brasil às emissoras integrantes da OTI (Organização da Televisão Ibero-Americana). Bastava pagar uma taxa a essa entidade e exibir o Mundial. Foi assim que SBT, Globo e Bandeirantes estiveram na Copa de 1994. E foi pela mesma razão que a Manchete não mostrou o tetra nos EUA, por não ter tido dinheiro para pagar.

Na Copa do Mundo de 2002, porém, o Grupo Globo (na época Organizações Globo) comprou os direitos exclusivos de transmissão em todas as mídias. Mas se deu mal no lado financeiro. Acertou o contrato direto com a Fifa por US$ 220 milhões e viu a cotação da moeda simplesmente disparar no ciclo daquele Mundial. Desde a adoção do câmbio flutuante no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a moeda americana deixou a casa do R$ 1 e passou a crescer de acordo com as movimentações do mercado.

No ano da Copa, que também era ano de eleição presidencial no Brasil, o mercado se assustou com a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas, fez subir o risco-país, e levou o dólar à casa dos R$ 4. Isso aumentou consideravelmente o que a Globo tinha que pagar à Fifa pelos direitos de transmissão (como também havia acontecido com os direitos do Brasileirão, sempre negociados em dólar com o Clube dos 13, mas aqui a emissora conseguiu impor mudanças e pagar menos).

Com essa “bomba” na mão, a Globo precisou buscar parceiras para revender os direitos de transmissão e ter uma ajuda a pagar essa conta. Mas havia um claro problema: além de ninguém ter condição de investir  em um cenário de país com incertezas econômicas, botar dinheiro alto em uma Copa do Mundo de madrugada que claramente teria maior concentração de audiência na emissora global não era nada atraente.

Até foi especulado um acordo com a Record, que naquele ano passou a ser parceira da Globo por meio da empresa de marketing esportivo Traffic, que havia deixado o comando do esporte da Band. Mas a história se encerrou no dia 9 de maio, a menos de um mês da abertura da Copa do Mundo de 2002, sem sucesso. O Grupo Globo seria mesmo o único a transmitir o evento no Brasil pela televisão.

Ainda houve uma tentativa de vender os direitos de VTs dos jogos por US$ 5 milhões. Nada feito. Ninguém topou. As cotas de publicidade da Globo só foram completamente vendidas também no mês de maio, mais um susto no modo “como emoção” para o departamento comercial da emissora. Era preciso ainda amortizar mais esse prejuízo. E aí veio outra ideia para arrecadar…

3 – Tinha PPV de reprise

Sabendo que boa parte da população brasileira só poderia fazer o sacrifício de varar madrugadas quando os jogos fossem do Brasil, e que muita gente já não tinha mais o VCR funcionando em casa nos tempos de transição entre videocassete e DVD (que ainda não servia para gravar), a Globo resolveu comercializar as reprises dos jogos da Copa do Mundo de 2002.

O Premiere, famoso desde 1997 pelas transmissões de eventos ao vivo no futebol brasileiro, agora era o canal da Copa. Por inacreditáveis R$ 129,90, o assinante tinha direito a ver os VTs na íntegra de todos os 64 jogos da Copa do Mundo de 2002 ao longo do dia. Em valores atualizados pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), a inflação oficial do governo, essa grana hoje seria de R$ 374,42.

Mas não basta apenas corrigir com a inflação.  É preciso contextualizar na renda: se hoje esses R$ 374,42 dariam pouco mais de um terço do salário mínimo em vigor (R$ 1.045), naquela época os R$ 129,90 eram praticamente 65% do mínimo de R$ 200. Absurdo.

E a venda era claramente forçada. O SporTV só tinha autorização para reprisar os jogos da Copa a partir das 21h, quase um dia depois da realização deles, e praticamente colado na próxima rodada que começaria na madrugada seguinte.

Em outras emissoras, a Globo fornecia apenas o mínimo previsto em lei: 3% do evento em imagens que só poderiam ser exibidas a partir das 13h, com limite de 24 horas de uso, ou seja, um jogo do Brasil que acontecia na segunda-feira de manhã só podia ter os gols nas concorrentes entre as 13h de segunda e as 13h de terça, não podendo mostrar nas mesas-redondas de domingo, por exemplo.

A Record, que tinha seu principal noticiário esportivo ao meio-dia, tinha que esperar mais de 24 horas para poder mostrar os gols do Brasil. No dia do jogo, chegava a mostrar ilustrações dos lances para compensar a ausência das imagens da Copa.

4 – Comerciais históricos

Teve a Coca-Cola tentando forçar Romário na seleção, mas Felipão bateu o pé e não quis levar o Baixinho para o Mundial.

Teve o Guaraná Antarctica atacando a Coca-Cola abertamente para exaltar o patrocínio da marca à seleção brasileira.

E teve a mais histórica série de todas as propagandas: a tartaruga maluca (estava mais para um jabuti) da Brahma:

5 – Fátima Bernardes no Jornal Nacional

“Onde está você, Fátima Bernardes?”. A frase dita todas as noites por William Bonner no Jornal Nacional, enquanto para Fátima Bernardes já era a manhã do dia seguinte na Ásia, entrou para a história do telejornalismo brasileiro.

A jornalista acompanhou todos os passos da seleção brasileira levando um pedaço da bancada do maior telejornal do país para a Coreia do Sul e o Japão. Acabou sendo chamada de “Musa da Copa” pelos jogadores na comemoração do penta.

Allan Simon é jornalista esportivo desde 2011, tendo passado por redações como o R7, Abril.com, UOL Esporte e Torcedores. Participou das coberturas de duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas, dois Pans, e diversos outros momentos históricos do esporte brasileiro nesta década. Criador do Prêmio Torcedores de Mídia Esportiva. Atualmente comanda o Blog do Allan Simon, é colaborador do UOL e colunista do Torcedores, tendo também um canal no YouTube com análises, histórias e estatísticas de mídia esportiva e futebol em geral.

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